Apostasy "Sunset of the End"

Publicado em: 21/09/2015 - 01:18

Nos últimos tempos tenho ouvido muita coisa vinda do Chile. E o que ouço raramente me decepciona. Semana passada, graças ao trabalho arqueológico do selo chileno Proselytism, pude finalmente conferir o único full lenght lançado pelo quarteto Apostasy. Editado inicialmente em 1991 (meras quinhentas cópias em tape), Sunset of the End passou praticamente despercebido à época. O que temos aqui? A melhor banda de thrash metal surgida no período final da clássica cena oitentista chilena. Confesso que me surpreendi com esse relançamento. Afinal, a Proselytism, de propriedade do enigmático Deathmessiah, líder da radical banda chilena de black/death Chainsaw, mostra interesse exclusivamente por bandas de “evil metal” (a nomenclatura é do próprio Deathmessiah). O thrash metal de veia precipuamente americana do Apostasy, conquanto competentíssimo, seria suficientemente “evil”? A resposta é sim.
Como já indiquei, o lance do Apostasy é o thrash metal americano. Mas nada de coisas mais leves como Metallica, Death Angel, Forbidden ou Anthrax. A coisa aqui é na linha do Slayer, entre o Hell Awaits e o Reign in Blood. Também dá para sacar algo de Dark Angel (Darkness Descends) e de Testament, principalmente nos vocais, que oscilam de um registro agressivo e sujo para outro mais limpo e melódico. A propósito, que puta trabalho fez esse vocalista Cristián Gomez. Além de ter uma boa voz limpa e ser capaz de torná-la, de forma convincente, agressiva, conta com a vantagem, pouco comum, de pronunciar aceitavelmente o inglês – embora o sotaque carregado das bandas sul-americanas sempre tenha conferido, reconheçamos, um “charme” especial ao nosso metal.
A música do Apostasy é rápida, extremamente variada (as faixas chegam a atingir seis, sete minutos, sem grandes dificuldades), dotada de ótimas transições, riffs angulosos e nervosos (isto é, nada de guitarras retas a la Metallica), quebradas headbangin’ sincopadas, baixão na cara, batera densa e precisa, muito peso, muita energia. Em especial, vale destacar a criatividade dos caras – na verdade, do guitarrista Crisitián Silva, responsável único pelas composições – para urdir temas de notável personalidade, bem sacados e de extremo bom gosto. Daqueles que você fica a assobiar depois de terminada a audição. Sim, assobiar! Embora porrada, eles têm melodia. Nesse quesito, o Apostasy aproxima-se, na sua medida, da sofisticação harmônica de um Testament, por exemplo.
Enfim, à exceção do vocal, que, embora muito bom, não é extremo, o som do Apostasy tende para a linha oitentista do thrash mais radical americano. Sem embargo, há também um quê na execução das músicas que me fez pensar em algo ainda mais ardido: o black/thrash casca-grossa do mineiro Mutilator no Immortal Force. Não é nada muito definido. Menos do que influência nas composições, trata-se mais de uma certa aura de crueza, uma sonoridade vil, que perpassa as músicas. Desconfio, aliás, que foi essa distinta sonoridade negra e “maligna” do Apostasy que lhe garantiu o relançamento pela Proselytism.
Destacar músicas em particular é missão difícil, já que o play todo é excelente e se ouve com muita facilidade. Ainda assim, fico com Fraud in the Name of God, arregaço cheio de feeling, riffs matadores e partes cadenciadas de puro mosh e banging (alguém é capaz de negar que há algo de Mutilator aqui?), a brutal Banished from Sanity, faixa mais rápida do disco (e que mosheada foda irrompe do meio para o fim da música!), e com a longa e complexa Addicted Tribulation, a mais sombria do play.
De bônus temos a demo anterior do Apostasy, Fraud in the Name of God, lançada em 1989, com outro vocalista. Todas as suas faixas foram regravadas no debut. As versões da demo são boas. Contudo, soam, em regra, inferiores às do lp. Em todo caso, vale o registro.
Como todos os lançamentos da Proselytism, o cd vem embalado em formato gatefold vinil de sete polegadas. Peça de colecionador.
Por fim, diga-se que a banda voltou à ativa, por obra de seu antigo guitarrista Cristián Silva, depois de mais de vinte anos parada. Uma demo de duas faixas, Blackened by Sacrifice, que ainda não ouvi, já foi gravada, agora em 2014. Por natureza sou desconfiado desses retornos. A responsabilidade da nova formação é grande, dada a qualidade do material antigo. Vejamos se, apesar do meu ceticismo, esse retorno tem futuro.


Capinha original da demo de 1989

Formação da banda na época do Sunset of the End

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