Black Hole Productions

Publicado em: 27/12/2013 - 13:42

Quem acompanha a cena nacional sabe que a Black Hole Productions, sediada em Joinville/SC, investe pesado em bandas igualmente pesadas do metal extremo e do grind/punk brasileiro. Desde 2002, ano de sua fundação, a BxHxPx vem lançado no mercado discos relevantes nos campos do death metal, grindcore, splatter e quejandos.
Registros importantes como os discos do splattercybergrind Lymphatic Phlegm e o último do Flesh Grinder pertencem ao catálogo da gravadora. Daí já se vê sua qualidade. Aliás, recomendo fortemente uma visita à página eletrônica da BxHxPx (http://blackholeprods.com), que disponibiliza, além de seus próprios títulos, muitos outros, de selos underground mundo afora, especialmente em grind e goregrind.
O camarada Fernando Camacho, velho batalhador da cena underground e proprietário do selo, de quem já compro material há uma década, enviou-me alguns discos para resenha.


Offal – Macabre Rampages and Splatter Savages (2010)

Esse é o segundo full lenght dos paranaenses. Em 2006, quando foi lançado o autointitulado primeiro disco da banda, o Offal tinha cara de ser um projeto pessoal do vocalista do Lymphatic Phlegm, o André Luiz. Agora parece que virou realmente uma banda. Em comparação com o seu debut não há nenhuma dúvida: o som aqui está mais consistente, muito mais bem composto e tocado. A produção, similarmente, está cristalina, com todos os instrumentos, inclusive o (muitas vezes esquecido) baixo, soando bem discerníveis.
Antes arrastado, o death metal old school de temática gore, obcecado por filmes de horror, do Offal deu uma acelerada nesse play, incorporando muitas passagens meio-tempo e algumas até mais rápidas, mas sem nunca desembestar no grind. Entre as doze faixas que compõem o disco destaco Feast for the Dead (http://www.youtube.com/watch?v=savqbroojUM), na qual desponta, lá pela sua metade, uma passagem mais lenta tremendamente catching e soturna. A curiosidade fica pela versão do tema de Profondo Rosso (aka Deep Red), filme do icônico diretor italiano de horror/suspense Dario Argento, levada num arranjo death metal.
No geral o disco mostra um som feito na manha, não muito agressivo nem muito ruidoso, pesado e com bases e riffs eficientes, embora alguns sejam, a meu juízo, um pouco genéricos. Um dos pontos de que mais gostei foram os vocais, bem encorpados e cavernosos, mais ou menos na linha do que o Kam Lee fazia no antigo Massacre – e bem diferente do que o André Luiz faz em sua outra banda, o Lymphatic Phlegm. O som e o conceito do Offal fizeram-me lembrar dos projetos-tributo a filmes de horror de que o Killjoy e o Frediablo, do Necrophagia, tomaram parte anos atrás, como o Wurdulak e o Gorelord. Tanto neles como no Offal certa dose de ironia, própria a muitas produções de horror “B”, pode ser percebida num subtexto da música.
Enfim, trata-se de um disco agradável – na medida em que um disco de death metal possa sê-lo –, que se ouve com facilidade. Confesso que prefiro o som mais sujo e caótico do primeiro play, mas, objetivamente falando, a atual fase do Offal é muito mais madura.
PS: Confiram também o clipe bem legal disponível no youtube:
Offal - Trail of the Undead (http://www.youtube.com/watch?v=gWF7T23XEIo)


Expurgo – Burial Ground (2010)

PQP! Mas o que é isso? Já respondo: uma porrada grind capaz de fazer frente, em matéria de esporro, ao Napalm do From Ensalvement to Obliteration. É óbvio que não existe grind lento. Mas vamos combinar. Esse tal de Expurgo pisa de tal maneira no pedal do acelerador que até para o grind eles são rápidos. Não acredita? Então confira a corrida alucinada dos caras, por exemplo, na faixa Affected by Disequilibrium (http://www.youtube.com/watch?v=gjsThfJHfd8), no curso da qual também surgem uns momentos muito legais a la Defecation do Purity Dilution. Aliás, o destaque absoluto no play, indubitavelmente, vai para o batera Anderson, que transita do grind para o speed e desse para o hardcore sem deixar a peteca cair em nenhum momento. Coisa muito séria!
Falei no início que o Expurgo faz frente ao velho Napalm Death, mas a analogia não é inteiramente correta. Afinal, o Napalm, pelo menos nos seus dois primeiros full lenghts, nunca foi exemplo de música tocada dentro do tempo. O Expurgo, ao contrário, detona um som tão certinho que os caras parecem estar tocando com metrônomo, o que, obviamente, não é o caso.
Outro ponto forte da banda são os ótimos riffs. Primordialmente grind, eles não se furtam a soar death metal quando conveniente, de modo a construir momentos mais mórbidos e sombrios. A esse propósito, ouça-se a introdução de Plasma Arc (http://www.youtube.com/watch?v=ftZ3cAHZYSc), que é puro Autopsy. Ressalte-se que as músicas, embora não sejam longas, geralmente são construídas com mais do que um simplório par de riffs, algo não tão comum em se cuidando de grind. Citações ao crust também abundam no som do Expurgo, como se pode perceber, a título de ilustração, na boa Exploitation, faixa na qual o espírito do Extreme Noise Terror das antigas marca sua presença.
Dá para sacar a influência de diversas bandas de grind, e também de splatter, no som dos caras. Sem embargo, em vez de citar uma penca delas – até porque eles não soam como cópia de nenhuma –, vou limitar-me a dizer que o Expurgo lembra vagamente uma versão mais metal e mais técnica do extinto Nasum, da Suécia, em sua fase de demos.
Para concluir, devo dizer que os mineiros do Expurgo não me eram totalmente desconhecidos. Já tinha ouvido antes sua split-demo com o Shatter Dead. Mas a verdade é que não estava preparado para o que ouvi nesse debut. Realmente sensacional. Tipo de banda que uma gravadora gringa, como a americana Relapse, assinaria sem pestanejar.


Facada – Nadir (2013)

Ainda no campo do grind vem o Facada, do Ceará.
Nadir já é o terceiro full lenght dos caras. Vale dizer, não temos aqui novatos. E isso fica claro no som, que é muito maduro e competente. Diversamente do Expurgo, o Facada não é das bandas mais rápidas do grind, preferindo investir em texturas mais sombrias e profundas. Suas letras, cantadas em português, seguem a velha escola do estilo e são superpolitizadas – conquanto totalmente incompreensíveis sem o auxílio do encarte.
Aos meus ouvidos, o Napalm Death, ali entre o Mentally Murdered e o Harmony Corruption, parece ser a referência mais evidente da banda, embora esteja longe de servir como um modelo a ser copiado. Ouça-se, a esse propósito, a boa faixa de abertura Deus de Carne (http://www.youtube.com/watch?v=Lleu2pbY9Xw). Provavelmente é só coincidência, mas, vez ou outra, como em Cidade Morta, pipocam no som do Facada uns surpreendentes riffs death/black metal típicos de bandas suecas como In Aeternum, Swordmaster e Sacramentum. O resultado, seja ou não uma influência direta, ficou muito legal.
A riferama tende para o old school, com marcada queda para o metal e também para o crust, ainda que riffs um pouco diferentes, e que também soam mais modernos, se incorporem ao som.
A produção, de outro lado, é decididamente abafada, mas não chega a ser pútrida, e contribui para reforçar o clima denso e sufocante criado nas composições.
Grind pesado, não dos mais velozes (para os padrões do grind moderno), soturno e ultrapolitizado, que tem tudo para agradar os fãs do estilo.


The Black Coffins – Dead Sky Sepulchre (2012)

Os paulistas do The Black Coffins podiam ter nascido na Suécia. Por acidente, nasceram no Brasil. Sim, porque a proposta dos caras é clara: misturar o crust típico daquelas paragens nórdicas com o swedeath old school praticado em Estocolmo no início dos noventa (bem entendido: nada da merda melódica de Gotemburgo!). O resultado é um som bem legal, por vezes até empolgante, que mescla riffs na linha Dismember do Massive Killing Capacity com Anti-Cimex – a propósito da influência desse específico disco do Dismember, ouça-se Hate ‘96 (http://www.youtube.com/watch?v=yi7WdfR6aOg), um death cadenciado e totalmente headbanging.
Diria que, nas cordas, o pessoal é mais metal, enquanto nas levadas da batera predominam as referências punk/crust. Mas isso é apenas uma tendência. Na realidade, todos os músicos da banda mostram extrema afinidade com ambos os estilos e transitam entre eles com muita facilidade e proficiência. Para escolher uma música de ilustração, aponto a faixa Below the Roots (http://www.youtube.com/watch?v=M2TYWaRESIc), em que o início totalmente crust dá lugar a uma simples e sombria base death metal para, em seguida, voltar ao crust e, de novo, ao death metal. Esse expediente se repete, com sucesso, durante praticamente todo o disco.
A produção do play é adequada, ressaltando a densidade das guitarras e o peso da batera. Aliás, no som das guitarras, construído em infinitas camadas de reverb, e no das caixas e dos bumbos, parece que o mago do death metal sueco, Tomas Skogsberg, serviu de influência na gravação.
Nos vocais a banda opta por um expediente não muito usual, qual seja, a utilização de vocais dobrados, a cargo do mesmo vocalista, em registros ligeiramente diferentes. Um é mais fechado, ao passo que, o outro, mais rasgado. Ambos, porém, são mergulhados em efeitos e distorções. É interessante, mas, confesso, achei mais curioso do que propriamente bom.
Um disco altamente recomendável de uma banda muito competente, que conjuga dois dos estilos mais fodas já surgidos na música extrema.


Flesh Grinder – Necrofiles (2013)

Desde que os catarinenses do Flesh Grinder surgiram na cena, com a clássica demo Rotten Process, em 1994, notabilizaram-se por fundir a sonoridade do splatter mais pútrido com o trabalho de guitarras do death metal americano. Ou seja, aquilo que se convencionou chamar de goregrind. Com o passar dos anos, e algumas importantes mudanças de formação, o som da banda foi evoluindo. Ficou mais bem estruturado, mais bem tocado, mais polido e discernível. Há de se reconhecer, ficou também um pouco menos radical, mas longe de ter-se tornado acessível ou trivial.
Essas características estão nítidas nesse novo trabalho dos caras, o vinil ep Necrofiles, gravado em 2012, mas somente lançado neste ano de 2013.
Como já se assinalou, o antigo splatter/death do Flesh Grinder, embalado por letras e capas das mais doentias e nauseabundas, virou, na fase atual da banda, um death metal na linha americana da Costa Leste. O splatter, é certo, continua presente. De forma mais diluída, o estilo aparece principalmente nas levadas quebradas da batera, como se pode conferir na batida de Curious Collection (http://blackholeprods.com/albums/necrofiles-7ep), e no diálogo entre os vocais - um supergutural e outro mais rasgado. As linhas de guitarra e os arranjos, entretanto, são quase que exclusivamente death. Prova disso está nos riffs mórbidos e eficientes, de puro metal da morte, que compõem faixas como a bem sacada Rotten Gore Insanity.
Outro testemunho da evolução da banda na direção do death metal pode ser encontrado ainda na inclusão de momentos mais climáticos, meio “autopsyanos”, como ocorre na bacana Maniac (Vile Tomb).
Talvez alguns fãs antigos e ortodoxos se ressintam da atmosfera densa e caótica de discos como Anatomy and Surgery, primeiro lp dos caras. De todo modo, a fase atual do Flesh Grinder ainda é relevante. Música extrema de qualidade, pesada e esporrenta, feita por uma banda já histórica no underground brasileiro.

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