Blasphemy Rites "Hideous Lord"

Publicado em: 23/01/2014 - 17:43

Lá pelo meio da década de noventa, dois dos estilos mais extremos então existentes no underground da música pesada acabaram por se encontrar: o grindcore e o war black metal. O que se pode dizer? Foi mais ou menos como se o Blasphemy tivesse se juntado ao velho Napalm Death para formar um projeto crossover. O resultado dessa mistura insana foi o nascimento da mais visceral forma de se fazer metal negro. Uma aberração sonora que poderíamos chamar (e, na época, assim foi) de grinding war black metal. A banda mais conhecida nesse estilo foi o alemão Naked Whipper, que lançou seu debut e único full lenght, o clássico Painstreaks, em 1995 – o Impaled Nazarene das demos e do primeiro disco também flertou com essa mistura, mas hesitaria em afirmar que tenha realmente abraçado o grinding black metal. Talvez em razão do radical hibridismo da proposta, poucas bandas surgiram, nesse meio tempo, para dar prosseguimento ao legado dos alemães. Felizmente, da velha Polônia católica, repleta de seus black metallers profanadores de tumbas e incendiários de igrejas, surge agora esse demolidor Blasphemy Rites.
A bem da verdade, a banda não é nova. Fundada em 1997, manteve-se todo esse tempo em estado de semilatência, tendo gravado apenas três demos. Seu debut, Hideous Lord, somente em 2010 viu a luz do dia, lançado pela Pagan Records. Nele encontramos todos os elementos essenciais do estilo: faixas curtas, riffs mezzo grind, mezzo black/death, solos sujos e alavancados, baixo napalmiano em curto-circuito, bateria histérica à velocidade da luz, passagens hardcore de meio-tempo, vocais diabólicos, vinhetas satânicas, sonoridade grave e abafada. É certo que o Blasphemy Rites, diferentemente do velho Naked Whipper, claramente prioriza os elementos mais metal em detrimento dos elementos grind. Confiram, por exemplo, a faixa de abertura Bestial Necromancy Sex, que é quase puro Blasphemy, ou Damned Bastard of Hell, reminiscente a Impaled Nazarene. Até mesmo um pouquinho de Morbid Angel, da fase clássica, dá pra sacar no som dos poloneses, principalmente nos solos. Mas isso não significa que o dna do grind esteja ausente do disco. De modo algum. Basta ouvir faixas como Beergoat of Sodomy, a curtíssima Genocide ou Alcoholic Sabbath, que certamente seriam bem recebidas num show por uma plateia formada por crustpunks.
Nem tudo, porém, é perfeito. Por vezes aparecem alguns riffs metal meio genéricos, que soam desnecessários e deslocados. Também a produção do play poderia ter sido melhor. Embora seja passável, não conferiu a densidade e o peso adequado para esse tipo de som.
O play fecha com três covers: Empty Chalice, do Blasphemy, Satan Bless You, do japonês Sabbat, e Dethroned Emperor, do Celtic Frost. As duas primeiras versões ficaram aceitáveis, mas nada de extraordinário. Já a do Celtic ficou bem ruim. Pessoalmente, acho que bandas de war black metal, por razões ligadas à incompatibilidade entre as estruturas rítmicas dos estilos, têm extrema dificuldade em reproduzir com sucesso aquelas matadoras cadências frostianas.
Sem embargo, é flagrante o potencial do Blasphemy Rites, bem como a relevância de sua proposta musical. Hideous Lord é um bom álbum. De um subestilo de black metal empolgante e muito pouco explorado nos últimos tempos. Ainda assim, tendo em vista que a banda foi formada já no fim da década de noventa, alguém mais cético poderia duvidar se esse potencial será mesmo realizado. Principalmente quando se nota que nada mais foi lançado, nesses mais de três anos depois da gravação do full. Contudo, realmente creio que, burilados alguns pontos (de minha parte, acho que os caras precisam é radicalizar e ir mais fundo na mistura), os melhores frutos desses poloneses bastardos ainda estão para serem colhidos. Banda para se ficar de olho.


Os poloneses malditos em ação


Compilação Something Wicked, Raw and Ugly -
contém a demo de 2002, ensaios e faixas ao vivo

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