Brazilian Ritual - Third Attack

Publicado em: 07/06/2014 - 15:17

Blasphemy – Revenge – Goatpenis – Bestymator
Brazilian Ritual – Third Attack
Espaço Lux, São Bernardo do Campo/SP – 09/11/2013


Depois do sucesso da segunda edição do festival, realizada no meio deste ano, cabia aos produtores do Brazilian Ritual um desafio: fazer um evento ainda mais bacana. Para isso trataram de importar, diretamente do Canadá, a maior lenda do war black metal mundial, o Blasphemy.
Juntamente com os canadenses malditos do Ross Bay Cult vieram também seus conterrâneos do Revenge. Quem conhece um pouco do cenário mais duro do black/death mundial sabe que o Revenge é uma das formações mais extremas já paridas pelo underground metálico. Uma noite na qual essas duas bandas insanas tocariam no mesmo programa, ambas a se apresentarem pela primeira vez no Brasil, não poderia ser menos do que fantástica.
Do lado brasileiro – o festival, nas suas duas últimas edições, seguiu o formato um par de bandas gringas e outro de brazucas – tivemos a presença do Bestymator e do Goatpenis. Duas das mais antigas e respeitadas formações do cenário black metal nacional, revelaram-se ótimas escolhas para representar as cores do nosso país.
O evento, desta feita, foi realizado no Espaço Lux, em São Bernardo do Campo. Não conhecia a casa. Num primeiro momento, fiquei com um pé atrás, pois o lugar é muito longe do centro de São Paulo, dificultando o acesso, principalmente para quem não era da cidade e estava sem carro. Deve-se reconhecer, porém, que o Espaço Lux, como casa de shows, é muito superior ao Hangar 110, local em que realizada a última edição do evento. Não simplesmente porque é maior, mas porque é bem mais confortável. Na verdade, talvez o lugar seja até grande demais para os padrões do underground, contando com capacidade para duas mil pessoas.
De fato, com pouco mais de um quarto da lotação, o público presente ficou bem espalhado, dando, em certos momentos, a sensação de que a casa estava vazia, o que não era verdade. Quem compareceu, entretanto, ganhou em conforto e pode assistir aos shows de forma bem tranquila. Um ótimo jogo de luzes e um som absolutamente perfeito completaram o time ganhador e deixaram tudo pronto para que a noite se tornasse um marco na história de shows de São Paulo. Sorte dos pouco mais de quinhentos presentes, que testemunharam um dos festivais mais demolidores já realizados em terras brasileiras.
Depois de um pequeno atraso, o paulista Bestymator abriu os trabalhos. Confesso que nunca tinha ouvido sua música, mas fiquei boquiaberto com o que presenciei. Os caras são veteranos na cena, tendo formado a banda já em 1989. Gravaram duas demos, uma em 1991 e, a outra, em 1996, além de terem lançado dois obscuros splits nos anos dois mil. Segundo me disseram, mesmo contando com poucos registros em todo esse tempo, o pessoal sempre manteve a banda mais ou menos na ativa, dando alguns shows esporádicos. Realmente, a julgar pelo desempenho no palco, fica difícil crer que estivessem inativos, uma vez que o show foi muito, mas muito profissional.





Imageticamente, o destaque absoluto vai para o vocalista Bestial. Trajado com capuz, batina e munido de uma estola vermelha bordada com cruzes invertidas, o cara centraliza todas as atenções. Mas é o artefato, mantido sempre bem diante da boca, no qual ele oculta o microfone, que realmente provoca fascinação: um crânio de bode (não sei se verdadeiro ou não) dotado de um par de chifres gigantesco, por meio do qual Bestial vocifera, misturando agudos e graves, suas blasfêmias repugnantes em português. O lance é tão bem sacado que, da plateia, fica-se com a impressão de que não um humano, mas um bode-caveira está no comando do microfone. Muito legal!
No aspecto musical, o Bestymator pratica um black/death metal de extrema eficiência e totalmente old school, no qual se intercalam com fluidez partes rápidas e outras mais cadenciadas. Os riffs, embora sejam simples, são muito bem construídos, reverberando power-chords tremendamente poderosos. A timbragem das cordas também merece um comentário à parte, soando encorpada e estridente, mas sem cair naquele exagero high pitched dos noruegueses. Principalmente nas cadências, lembrei-me repetidamente do velho Samael, do Worship Him, e até do supercult Bestial Summoning, da Holanda. De outro lado, nas partes em que a velocidade da música acelera ao ponto do grind, veio-me à cabeça bandas do tipo do antigo Impurity da fase de demos. Mas nada disso afeta a originalidade do Bestymator, que tem talento suficiente para processar suas influências de modo a criar uma sonoridade própria. Banda verdadeiramente excelente. É lamentável que os caras não tenham mais material gravado. Pelo menos as suas antigas demos poderiam ser reeditadas, até mesmo para resgatar um material de culto, hoje quase perdido, do verdadeiro black metal de guerra brasileiro.
Após a apresentação apoteótica do Bestymator, entraram em cena os catarinenses do Goatpenis.
O Goatpenis, banda nascida lá nos idos de 1991 das cinzas do conjunto de grind/splatter Suppurated Fetus, começou sua história no underground como uma formação basicamente de black/doom satânico. Dessa época, mais especificamente de 1992, é a famosa demo htaeD no tabbaS, registro tosco e afrontador no qual um vocal absolutamente insano, dos mais desesperados já surgidos no metal, dava o tom geral da música. O som dos caras mudou radicalmente com o passar dos anos, tornando-se mais rápido à medida que absorvia influências de death metal. Quando da gravação do primeiro full lenght, Inhumanization (2004), o Goatpenis já havia estabilizado definitivamente sua proposta musical, que consiste num war black metal normalmente rápido, bem composto e bem tocado, não muito grave e com riffs facilmente discerníveis (para os ouvidos escolados) no meio da massa sonora produzida. Para ser sincero, prefiro sua fase de demos, quando eram mais black. Porém, seria tolice negar a maturidade que, como músicos, eles atingiram.
Apesar do visual um pouco estranho dos caras, uma mistura de Rambo com mariner americano, o show do Goatpenis foi muito bom. Na verdade, eles soam melhores ao vivo do que em estúdio. Com efeito, embora tenham se apresentado no formato power trio, a falta de uma segunda guitarra não foi sentida. Um dos segredos da banda é a forma como equalizam o baixo de Sabbaoth, que soa quase como uma guitarra com registro mais grave. Aliás, a precisão com que a dupla responsável pelas cordas toca é impressionante, o que facilita sobremaneira sua interação no palco, tão mais necessária quando não há a dita segunda guitarra para esconder eventuais erros na execução das músicas. Problemas no retorno da bateria provocaram alguns contratempos. Num desses momentos, a apresentação teve de ser interrompida por vários minutos. Mas nada que tenha realmente afetado a performance do grupo.
O set list revisitou grande parte da carreira da banda. Da segunda demo, Blessed by War (1993), foram tocadas quatro faixas, entre elas as clássicas Psychopatic Anal Terror, música mais death metal já feita pelo grupo, e a blasfema Jesus Coward – ambas estão presentes, também, na terceira demo dos caras, gravada em 1994. Do Inhumanization e do Biochemterrorism, seus dois primeiros full lengths, detonaram outras tantas, com destaque para a excelente Roman Revenge, música que contou com a participação especial de Impurath, da banda de black/death americana Black Witchery, nos vocais. Um par de faixas tiradas do último disco e mais duas outras do recente split com o americano Nyogthaeblisz também foram executadas. Por alguma razão, o set da banda, inicialmente previsto para quarenta minutos, foi esticado, o que lhes permitiu até tocar um tema novo, a boa Extremly High Doses, que estará presente no seu próximo disco. Senti falta de músicas da primeira demo. Mas a verdade é que elas não têm mesmo mais nada a ver com o som atual dos caras. Um show que comprova o nível de excelência internacional que o Goatpenis alcançou.
Iniciando o segmento internacional, subiu ao palco a máquina de guerra conhecida como Revenge. Quem já viu um show da banda sabe o que esperar: uma devastação sonora capaz de transformar a plateia numa massa sanguinolenta de carne e ossos triturados. O impacto sonoro é tamanho que chega a entorpecer os sentidos. Sem dúvida se trata da banda mais esporrenta que já vi ao vivo.
A grande força do Revenge reside na fenomenal sinergia que existe entre seus músicos. Cada um dos integrantes do trio canadense desempenha suas funções em total sintonia com os demais. Até mesmo nas partes mais insanas, nas quais a música ameaça descambar para o noise, esse entrosamento não é perdido, com a guitarra respondendo, no mesmo tom, aos delírios das linhas de baixo, ambos secundados pelas apocalípticas levadas quebradas do batera. Embora a maior virtude da banda esteja no conjunto, é impossível não falar do desempenho individual dos músicos.
Vermin, o vocalista/guitarrista, vomita seus agudos vocais rasgados ao mesmo tempo em que conjura riffs rápidos e infernais. O baixista Haasiophis, que também integra a banda de black/death canadense Antediluvian, faz-lhe a perfeita contraparte, somando uma gravidade abissal à timbragem estridente das seis cordas. De se ressaltar, ainda, seus bons backing vocals, profundos e distorcidos ao ponto de soarem splatter, lembrando mesmo o Carcass no começo de carreira.
Mas é o batera, James Read, fundador do antigo e legendário Conqueror, que responde pela performance individual mais impressionante na banda. O que esse sujeito faz com um par de baquetas é sobrenatural. A rapidez, a precisão e a fúria com que ele massacra a bateria encontra poucos paralelos na história da música pesada. Só mesmo gigantes consagrados do metal extremo, como Gene Hoglan, Pete Sandoval, Max Kolesne ou Tony Laureano podem fazer-lhe frente. Em especial, sua habilidade para imprimir constantes mudanças de velocidade nos blast beats, intercalando bruscas e espasmódicas desacelerações com retomadas de tirar o fôlego, é algo que, sinceramente, não me lembro de outro baterista que também o faça.
O show do Revenge durou cerca de uma hora e músicas de todos os seus quatro full lenghts foram executadas, incluindo a demolidora Altar of Triumph, do primeiro disco, com sua cadência primitivista de quebrar o pescoço, e Blood of my Blood, uma das mais antigas composições da banda, constante do primeiro ep. Ainda houve espaço para um cover iradíssimo de Equimanthorn, do Bathory, durante a qual Impurath voltou ao palco para ajudar nos vocais.
Sem embargo, destacar uma ou outra música, em se tratando do Revenge, é algo meio artificial, pois todas seguem um padrão semelhante, soando, em verdade, como pequenos fragmentos de uma mesma peça única. Ao contrário do que essa afirmação possa sugerir, no entanto, o show não se torna monótono. Cada paulada sônica desferida pela banda serve para apertar o laço em volta do pescoço da plateia, de modo a asfixiá-la, progressivamente, num tipo sádico de forca musical. Um show do Revenge não exige apenas ouvidos de aço, mas, verdadeiramente, coragem física do expectador.
Entrar depois de um show do trio formado por Vermin, Read e Haasiophis constitui tarefa inglória para qualquer um. Mas o Blasphemy não é qualquer um. Falar da importância da banda para o underground do black/death metal satânico e particularmente do war black metal é chover no molhado. Ao lado do nosso imortal Sarcófago, do australiano Bestial Warlust e do finlandês Beherit, o Blasphemy foi o responsável por definir os parâmetros do estilo. A banda esteve inativa por cerca de dez anos, do lançamento de seu segundo lp, em 1993, a obra-prima Gods of War, até 2002, quando realizado o épico show do retorno, devidamente registrado e posteriormente lançado pela cult gravadora Nuclear War Now! dos EUA.
Da formação original, responsável pela gravação da histórica demo Blood upon the Altar, em 1989, restaram os cabeças da banda: o guitarrista Caller of the Storms e o vocalista Nocturnal Grave Desecrator and Black Winds. Ryan Förster, do não menos seminal Conqueror, VK, ex-integrante da banda neozelandesa de black/death Diocletian e Vaz, do Black Witchery, assumiram, neste show no Brasil, a segunda guitarra, o baixo e a bateria, respectivamente.

A ansiedade da plateia, momentos antes do show do Blasphemy, era óbvia. Afinal, além de se tratar de uma lenda do black metal, eles nunca antes haviam tocado por aqui. A expectativa da galera atingiu seu clímax quando a conhecida introdução Ross Bay, que abre a demo de 1989, começou a soar nos PAs. Durante seu pouco mais de um minuto, os integrantes do Blasphemy aguardaram solenemente, postados em seus lugares, a encarar a plateia. Uma eletricidade negra tomara conta do lugar. Assim que encerrada a intro, os caras emendaram a curta e rapidíssima War Command, que funciona como a mais perfeita tradução sonora de ter-se a cabeça repetidamente chutada durante quarenta segundos. Era a senha para o começo do apocalipse.
Contando com uma qualidade sonora excepcional, a banda foi enfileirando clássico atrás de clássico, retirados de todos os seus lançamentos. De fato, apenas uma única composição, constante do segundo play da banda, Gods of War, deixou de ser executada. Até mesmo alguns dos famosos e arrepiantes interlúdios de efeitos, que, por vezes, introduzem as músicas nos registros de estúdio, foram reproduzidos durante o show, na mesma sequência apresentada nos discos. O recurso funcionou muito bem, conferindo um clima ocultista, encantatório e até mesmo nostálgico à apresentação da banda.
Gods of War (hino eterno do black grind!), Desecration, Nocturnal Slayer (uma das faixas mais malignas da banda), Emperor of the Black Abyss (com suas alucinantes levadas meiotempo), Blasphemy, Fallen Angel of Doom, entre outras, botaram o público inteiro para banguear furiosamente. Até uma pequena roda de pogo – coisa incomum em shows de war black e que não é muito bem visto nesse meio – abriu-se, perigosamente, num determinado momento.
A performance da banda foi impecável. Cheios de rebites, spikes, correntes, mantos negros, capuzes e máscaras de gás, os caras já ganham a plateia antes mesmo de começarem a debulhar seus instrumentos. O vocalista Black Winds não precisa fazer esforço para atrair as atenções no palco. Basta abrir a boca e deixar seu vocal monstruoso e demoníaco assombrar o ambiente. Caller of the Storms e Ryan Förster executam as bases e os riffs de forma primorosa. O baixo, a cargo de VK, completa com eficiência o conjunto de cordas, enquanto Vaz, na bateria, mostra que é um dos melhores bateras do war black metal atual.
É bem verdade que, afora Black Winds, a banda não agita muito. Mas isso, aos meus olhos, não é um defeito. É que, ao contrário, por exemplo, de um Revenge, o som do Blasphemy tem um caráter soturno e ritualístico que pede mesmo certa solenidade na execução das músicas.
No bis, a banda detonou Atomic Nuclear Desolation e, uma de minhas favoritas, Empty Chalice (com sua desolada passagem doom inicial), tiradas do Gods of War. Foram deixados para o fim dois dos mais famosos assaltos sonoros do Blasphemy: Demoniac e Ritual, ambas presentes na demo de 89 e regravadas no Fallen Angel of Doom. Simplesmente fantástico!
Terminado o show e o festival, restou ao público presente fazer o longo caminho de volta a São Paulo. Nenhuma queixa. Depois de um evento dessa magnitude, qualidade e importância, tenho certeza de que nem se tivéssemos de voltar a pé haveria espaço para reclamações. Quem não foi, lamente-se pela eternidade. Minhas memórias ficarão comigo para sempre.


Set list BESTYMATOR:
Introdução
Desejo de Leviatan
Mórbida Profecia
A 7ª Bruxa do Círculo Místico
Atormentado após o Mortuário
A Lendária Glorificação da Serpente
Pela Glória do Mal
Necroconjuração

Set list GOATPENIS:
Final Attomic Battle
Master Blaster
Black Rain
Pugnacious Force
Machine Voidness
M-29 Seargent
Frog-7
Psychopatic Anal Terror
Dunkel Himmel
Bellum contra Humanitatem
Roman Revenge
Soldier of Blasphemy
High Temperature Fires
Extremly High Doses
Jesus Coward

Set list REVENGE:
Us and Them
Traitor Crucifixion
Cleansing Siege
Death Heritage
Pride Ruination
Final Doctrine
Altar of Triumph
Banner Degradation
Equimanthorn
Blood of my Blood

Set list BLASPHEMY:
Ross Bay (intro)
War command
Blasphemou Attack
Gods of War
Darkness Prevails (intro)
Darkness Prevails
Desecration
Nocturnal Slayer
Emperor of the Black Abyss
Hording of Evil Vengeance
Goddess of Perversity
Weltering in Blood (intro)
Weltering in Blood
Blasphemy
Winds of the Black Gods (intro)
Fallen Angel of Doom
The Desolate One
Demoniac
Atomic Nuclear Desolation
Empty Chalice
Ritual

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