Cianeto Discos - lançamentos, parte 1

Publicado em: 23/08/2014 - 17:37

A gaúcha Cianeto Discos, de propriedade do visionário Gil Dessoy, já é bem conhecida na cena nacional, havendo firmado seu nome como uma das mais prolíficas gravadoras underground brasileiras. O maior mérito da Cianeto é focar em bandas iniciantes. Bandas que ainda lutam com extrema dificuldade para conquistar seu espaço no competitivo meio da música extrema. Via de regra, os lançamentos do selo (sempre a preços módicos) giram em torno do death, do black metal e do goregrind, mas também não lhe são estranhos títulos de thrash, crust e até doom/stoner. A par do apoio a bandas debutantes, outra notável característica da Cianeto é sua habitual disposição para trabalhar em parceria, o que, não raro, gera lançamentos em coparticipação a contar com três, quatro, cinco ou mais gravadoras e distribuidoras. Sem dúvida é algo elogiável, que ajuda a fomentar a união entre aqueles que realmente fazem a cena acontecer.
Meu contato com o Gil remonta há anos. Iniciou-se na época em que a Cianeto ainda se chamava Satanael Records (depois Cauterized) e a banda dele, a Lenhador, acabava de lançar sua excelente demo, The Fall of the Wood, mais tarde relançada como o debut, em 2005. Recentemente o Gil me enviou vários de seus lançamentos, sobre os quais irei publicar, nas próximas semanas, sempre em blocos de cinco, resenhas mais condensadas aqui no sítio.
Mãos à obra!
NOTA IMPORTANTE: Enquanto redigia as resenhas fui surpreendido, assim como muitos outros, pela súbita notícia do encerramento das atividades da Cianeto Discos. Ainda que lamente a decisão, desejo o melhor para o Gil e espero, sinceramente, que seus projetos futuros venham a manter relação, de algum maneira, com a cena de música extrema. A falta da Cianeto será sentida. Sua importância, contudo, ficará registrada na história da música underground no Brasil.



DyingBreed – Killing the Image of your God demo cd (2013)
De São Leopoldo, Rio Grande do Sul, vem esse DyingBreed. Seus membros são nomes já conhecidos no meio death gaúcho, com participações em vários outros conjuntos locais mais antigos, como o Hateworks. Nesse primeiro registro, de quatro faixas, a proposta da banda é tocar um metal da morte com vários elementos modernos e incursões eventuais em andamentos thrash. O som é simples, mas bem tocado e praticamente não há solos, à exceção da última faixa. Embora a música do DyingBreed seja pesada (afinal, isso aqui é death metal), não chega a ser realmente extrema, optando a banda por um som mais na manha e discernível. Apenas na faixa Crazy Human Experiments surgem, lá pelo meio, uns blast beats. Coincidência ou não, foi a faixa de que mais gostei. A produção conferiu uma sonoridade clara ao play, ressaltado os elementos mais modernos dos caras. Destaque para as partes de batera, realmente muito boas, especialmente os bumbos. Um som digno, ainda que não chegue a impressionar. Consta que estão a gravar o debut.



Triturador + Insepsy – Split (2011)
“Goregrind is the game I play, ’cause no one show me the right way...” Retalhando com recurso a garrotes enferrujados as vísceras intumescidas de pus dos ouvintes bestificados vem o tonitruante duo cearense Triturador. Um par, ou uma trinca, de riffs caóticos executados em velocidade supersônica sobre uma batida eletrônica epilética é o que eles têm a oferecer. Ah, sim, ainda há os vocais: um misto de regurgitação de sangue bilioso com ingurgitação de rejeitos tóxicos. Raramente as músicas passam de trinta segundos. Uma ou outra parte mais cadenciada, no estilo “dança de ogro”, dão uma temperada miasmática no som. Negócio realmente mimoso.
Puta que o pariu! Que é isso?! Também de Fortaleza vem esse aberrante Insepsy. Puro splatter old school maravilhoso é o que se ouve aqui. Pense em Dead Infection dos melhores momentos. É mais ou menos por aí. Vocais bacaníssimos, uns gargarejos ultramegadistorcidos que te fazem querer assobiar felizão a melodia, somados a riffs sinistros, muito inspirados e realmente matadores, são os principais sintomas do horrendo tumor neoplásico que brota das geneticamente deformadas músicas desse registro. Tudo devidamente exumado numa produção pútrida, bem adequada ao estilo. Infelizmente, quatro faixas são muito pouco para satisfazer nossa urgência por tripas fétidas e sangue rançoso. Meu caro Gil, esse Insepsy precisa de um full lenght o quanto antes! Destaque para a mórbida Zumbier Novice (certamente um hit instantâneo nas paradas do necrotério), dotada de um slam daqueles de te fazer acertar a cabeça no teto enquanto tu pulas convulsivamente. Das melhores coisas que ouvi em matéria de splatter nos últimos tempos.



Triturador + Rancid Flesh + Industrial Noise – Split (2011)
Interessante split de quarenta minutos apresentado três bandas realmente desgraçadas.
O Triturador já é nosso conhecido. A música da banda, aqui, não sofreu nenhuma mudança significativa em relação ao split anterior. Goregrind nos canos movido a bateria eletrônica – que, felizmente, não soa excessivamente artificial. Impossível não mencionar a charmosamente intitulada Andrei Chikatilo Returns (não sabe quem foi? dê uma googleada e descubra...).
Outra banda do forte cenário goregrind de Fortaleza, o Rancid Flesh detona um som bem simples, por vezes algo simplório, e direto. Não tenho certeza se a bateria aqui é eletrônica, mas bem pode ser. Um vocal grave suíno, a vociferar letras totalmente na linha Carcass antigo, junta-se a estruturas musicais decididamente old school de modo a produzir uma sonoridade próxima do splatter clássico. Embora o som seja evidentemente rápido, muitas partes com levadas meio-tempo surgem no correr das músicas, dando um ar bem tradicional ao som do duo. Ouça, por exemplo, Post Mortem Self Digestion (que me lembrou até do velho Gut da Alemanha) e comprove. Um cover passável de Dead Infection, Maggots in your Flesh, reforça essa impressão clássica do som. A produção é crua, talvez até um pouco demais. Em alguns momentos, senti falta de mais peso – se gravaram as partes de baixo, elas ficaram inaudíveis. De todo modo, a banda tem boas ideias e merece ser acompanhada. Como curiosidade, há uma versão do tema do clássico filme Cannibal Holocaust, do infame diretor italiano Ruggero Deodato. O Rancid Flesh já tem um full lenght chamado Pathological Zombie Carnage, gravado em 2012, que, infelizmente, ainda não escutei.
Fecha o split o assustador Industrial Noise. Decididamente a banda mais sombria do split, o trio de Presidente Prudente/SP, formado ainda na segunda metade da década de 90, executa um grindcore perturbador, grave, sinistro, pesado pra caramba, superdenso, cheio de reverbs e guitarras afinadas no limite da audição humana. Algo assim como o velho Agathocles em seus momentos mais mórbidos. A produção é podre a não mais poder, o que só contribui para intensificar o clima sufocante criado pela música. Se tiver coragem, ouça, por exemplo, Ideais sem Razão e tente não se atirar pela janela. Sim, o Anjo Negro do Apocalipse chegou, meus amigos! Influências do que de mais putrefato já pariu o asqueroso death metal europeu, tipo Pungent Stench do primeiro ep e do split com o Disharmonic Orchestra, também assombram a música demencial do Industrial Noise. Fodido demais! Vale ressaltar que ainda consta do material um cover imundo para Human Origin, da mítica banda de grindcore australiana Warsore. Que não se tenha dúvida: um full lenght ou mesmo uma compilação reunindo o material até agora já lançado pelo Industrial Noise é absolutamente obrigatório. Especialmente indicado para os mais radicais entre os radicais (ou seja, os leitores deste edificante sítio).



Triturador + Kekuatan Super – 2 Way Split: We Fast Armageddon and Rebellion Bastard (2012)
Outro split do Triturador. Quanto a eles, não há muito a acrescentar. Talvez somente o fato de que, aqui, os cearenses soam um tanto mais grindcore e menos goregrind. A produção também é um pouquinho mais limpa. Depósito de Carcaça Humana e Seguro de Vida mostram bem a veia mais grindcore do Triturador nesse play.
Já o Kekuatan Super, banda vinda da Indonésia, trilha os caminhos do hardcore, principalmente aquele praticado na Cosa Oeste americana. O som estridente e rapidíssimo dos caras chega a flertar com o power violence. Ao contrário da maioria das bandas desse último estilo, entretanto, as guitarras do Kekuatan Super são bem encorpadas e pesadas, o que dá uma pegada legal ao som. As músicas reverberam energia e convidam ao pogo e ao slam dancing. Por vezes os caras abrem espaço para elementos mais heterodoxos, inclusive com a adição de sonoridades pouco usuais na música pesada. Mas não é nada excessivo. Soa mais como um molho às composições. Um som original, que não precisa jurar obediência a invencionices modernosas para soar carismático. Uma rápida citação (meio irônica) ao metal dá um sabor diferente à bacana faixa Santapan Rohani Para Birokrat.



Sade – The Gore Tantric Sadism demo cd (2012)
Ganha o primeiro ep original em vinil do Absyntho (aquele do Ursinho Blau Blau), quem adivinhar de onde vem mais essa banda brazuca de gore metal. Isso mesmo, Fortaleza! Não sei se ajuda muito, mas parece que esse Sade é um projeto do pessoal do Carcará, banda de thrash metal cearense, já que três de seus membros, a exceção é o vocalista, tocam naquele conjunto. Seja como for, o som aqui tem bem pouco – ou nada – de thrash metal. É difícil classificá-lo, já que os caras bebem em muitas fontes diferentes do som extremo. A base é um death meio-tempo, cheio de levadas D-beat e dotado de guitarras gordas e intensas. O vocal, um pig squeal contínuo, parece um rebento gerado da cruza entre o brutal death metal e o goregrind. Uns riffs e detalhes meio Cannibal Corpse surgem aqui e ali, mas a banda, em regra, opta por estruturas mais simples de guitarras. O baixo é bem destacado na mixagem, soando pesado e na cara. Na parte lírica, a banda investe fortemente no duvidoso pornogore. Meu destaque vai para a faixa que encerra a demo, Sade, com sua introdução totalmente fritada nas cordas. Puro catching headbangin’! Banda muito divertida.

Deixe seu comentário