Cianeto Discos - lançamentos, parte 2

Publicado em: 27/09/2014 - 13:47

Poison Beer – Poisoning the Priest ep (2013)


Hoje em dia há uma nova onda de thrash metal. Para todo lado que se olha vê-se uns guris imberbes com jaquetas cheias de patches, calças justas, tênis de cano alto e cintos de balas. É óbvio que a referência deles são os gloriosos anos oitenta. Não tenho nada contra fazer som retrô. Cada um toca o que quiser. Mas a muitas dessas bandas, sejamos sinceros, falta conhecimento de causa. O erro mais comum desses moleques é não entender que o thrash metal oitentista – principalmente o europeu – trata, sobretudo, de sonoridades. Não adianta compor um riff a la Kreator ou Destruction antigos e gravá-lo como num disco do Pantera. Produção limpa e moderna simplesmente assassina esse tipo de som. Não há razão para citar nomes, mas várias bandas que ultimamente vêm ganhando notoriedade no “novo thrash” brasileiro (e também mundial) fracassam miseravelmente nesse quesito.

Dito isso é bom ressaltar que, felizmente, o curitibano Poison Beer NÃO é uma dessas bandas. O que se ouve aqui é um retro-thrash empolgante e totalmente fiel aos anos oitenta. Quem manda no som dos caras é o black/thrash germânico. Bateria e vocal me lembraram Sodom (com a ressalva de que as batidas, aqui, são bem mais coordenadas do que no In the Sign of Evil), já a rifferama, Kreator e Darkness. A produção, pedra no sapato da maioria dessas bandas formadas por moleques, é excelente, cheia e densa, sem, contudo, cair na embolação. Em especial a bateria soa muito legal, longe de qualquer estridência oca modernosa. Uma pitada de Bathory e de Sepultura do Morbid Visions também dá para sacar de leve no som, como em Hellucinations, além de Slayer do Show No Mercy, como na matadora Lust in the Convent. Outra virtude dos guris é a capacidade de criar refrãos marcantes. Confira-se, a esse propósito, a ótima Grand Theft Beer, que é uma daquelas de levantar a galera para cantar junto no show. As cinco faixas desse longo ep de vinte e um minutos são todas muito, muito boas. Sem embargo, mais do que qualquer outra, destaco a faixa título do trabalho, que inicia com um riff mosheado memorável capaz de fazer até um paraplégico sair batendo cabeça. Embora a mistura de thrash oitentista e punk funcione legal (como, no Brasil, as bandas retrô do Rio na linha Whipstriker e Atomic Roar bem o provam) é salutar ouvir um som, feito por uma banda nacional, que se concentre exclusivamente no thrash/speed metal clássico oitentista. Excelente!



Heretic Execution – Contemplating the Obscurity demo (2013)


Heretic Execution é a banda original de Alexandre DisgraceDeath, atual vocalista da melhor banda de death metal brasileira contemporânea, o fodidíssimo Poisonous, da Bahia. Assim como o Poisonous, o Heretic Execution executa um metal da morte ortodoxo, negro e sombrio, que, embora inegavelmente rápido, foca mais no peso e na construção de climas do que na velocidade. De fato, há muitas passagens mamutescamente cadenciadas no som desses soteropolitanos, nas quais se abusam de ótimos trêmolos na linha Death antigo e Immolation. Outra coisa bacana é que a banda não confunde extremismo com eliminação pura e simples de melodia. Ao contrário, há muitos trechos melódicos nas músicas. Mas são melodias fanaticamente macabras, nada a ver com bobagens alegrinhas do “life metal”. Bom, há uma exceção: em Blasphemies on the Nazarene Corpse a banda dá uma escorregada e se aproxima demasiadamente daquela porcaria que néscios designam de “death metal melódico”. Mas não é essa a marca do Heretic Execution, como deixa claro Total Death Cult, a melhor do play, pesadíssima faixa de abertura que mostra a verdadeira natureza casca-grossa da banda. Infelizmente, a demo também padece de sérios problemas. Embora a produção esteja a cargo do talentoso Michael Hellriff, guitarra do Poisonous, não ficou satisfatória. Muito embolada, soterrou os vocais na mixagem e deixou a guitarra solo muito magrinha. Mas pior ficaram os bumbos, que soam pavorosos: totalmente artificiais, ocos e agudos. Também as composições, por vezes, revelam-se pouco criativas, com algumas soluções demasiadamente óbvias. Entre erros e acertos, a balança, contudo, pesa em favor da banda. A ver seus futuros trabalhos.



Horror Chamber – The Devil Has No Face ep (2009)


Nesse interessante ep de estreia o trio portoalegrenses Horror Chamber investe forte num death metal pesado e sincopado, com guitarras afinadas vários tons abaixo e mergulhadas em distorção. Partes rápidas surgem em certo momentos, mas não é essa a tônica da banda. Em faixas como Clown Killer, o lado mais brutal dos caras diz presente, na forma, principalmente, de cadências ácidas e carnívoras, na linha do que fazia o maravilhoso Mortician – ouça, em especial, a fritada de cordas que surge por volta de um minuto dessa música. Outros momentos cáusticos podem ser encontrados em Sleep Hollow, com seu andamento inicialmente lento e suas guitarras ranzinzas. A produção, embora seja exagero adjetivá-la de limpa, conservou um nível razoável de clareza, o que permite identificar o que cada instrumento está a fazer, separadamente. De curioso há uma versão para Aces High do Iron Maiden, executada numa afinação tão mais baixa em relação à original que chega a parecer que a gravação está em tempo retardado. Ficou mais engraçado do que propriamente bom. De um modo geral, o som dos caras é legal, mas certa indefinição quanto à linha – se vão optar pelo death metal mais extremo ou por um mais tradicional – incomodou-me um pouco. Se estou apto a opinar, diria que devem seguir a linha mais brutal, pois é quando a banda obtém, a meu parecer, os melhores resultados.



Hass – Applause (2013)


Esse já é o segundo full lenght do duo catarinense Hass (ódio, em alemão). O primeiro, gravado em 2011, eu desconheço. E o que temos no correr dos seus longos sessenta e um minutos de duração? Difícil definir. Certamente o Hass se move dentro do largo guarda-chuva do black metal moderno. Guitarras estridentes, vocais high pitched, letras sobre o left hand path (ainda que estranhíssimas) não deixam dúvidas sobre a filiação estilística da banda. No mais, a coisa é bem heterodoxa. Para começo de conversa não há, no disco, um único riff minimalista norueguês sobre a indefectível base de blast beats. Em regra, o trabalho de guitarra – e também do baixo, ao qual se dá, tanto na composição quanto na gravação, forte destaque – é bem mais complexo e investe em fraseados, alguns verdadeiramente empolgantes, com diversas mudanças insuspeitadas de notas, texturas e acordes, coisa não muito comum no metal negro. Ouça, a esse propósito, a faixa de abertura Black Plasma ou a brilhante Plastic Redeemer. Trata-se, também, de um disco melodioso, repleto de harmonias de guitarras e, surpreendentemente, de harmonias vocais. Em faixas como Mojo Enigma e Obscure Innuendo dá para lembrar de Katatonia e até de Iron Maiden. Noutras, como em Mythological Thruth, a banda investe num clima speed/thrash construído sobre uma rifferama infernal reminiscente a Destruction das antigas. Mas o hibridismo não para por aí. Under Red Stench já segue outra direção: uma linha arrastada e melancólica que faz pensar em bandas de misanthropic black metal americanas da estirpe do Leviathan e do Xasthur. Há espaço, inclusive, para momentos viking, como em Babbling of an Idiot e na suave (e excelente) Release the Soul, essa última dotada de uma melodia vocal e de um coro muito bem construídos. Para fechar o disco há uma iconoclasta versão para ‘till I Die, dos Beach Boys (?!), que ficou mais para Celtic Frost do que para os surfistas californianos. Enfim, criatividade e não conformismo são a nota do disco. Funciona sempre? Não. Por vezes a informação é tanta que a costura da música ameaça se romper. Além disso, os elementos de misanthropic, a meus ouvidos, não ficaram bons, pecando por soarem muito triviais. Embora seja recurso largamente empregado no meio, também não gostei dos vocais excessivamente microfonados. Por fim, acho que a gravação poderia ter ficado mais pesada. De todo modo, é um disco instigante e meritório, de uma banda talentosa, que ousa inovar num gênero já tão saturado quanto o black metal de matriz noventista.



Hateworks – Years of Hate compilação (2013)


Cd contendo todo o material já lançado pela banda gaúcha, sediada em São Leopoldo, Hateworks. Temos aqui sua demo autointitulada, de 2005, a demo Omnious Pride, de 2006, e o ep Belief, de 2005. O som é um bom death tradicional, clássico mas não retrô, com muita influência de Death, principalmente do álbum Human, e um pouco do velho sueco Unleashed, banda da qual, inclusive, os caras levam um cover: Never Ending Hate, do clássico Shadows in the Deep. Em relação à produção, a melhor gravação é a da demo de 2006, que soa clara e pesada, sem embolações excessivas nem estridências ou vazamentos desagradáveis. A do ep é aceitável e, a da primeira demo, prejudicada, principalmente nas partes rápidas de bateria, que ficaram com uma sonoridade demasiadamente artificial e com menos peso do que seria adequado. Embora seja um som tradicional, a música do Hateworks não é de modo algum simplória. De fato, há várias mudanças de riffs e de andamentos no curso das mesmas faixas, o que torna o som bem dinâmico. Cabe destacar as ótimas e pesadíssimas bases palhetadas em trêmolo que volta e meia eclodem nas músicas, mostrando que as lições do mestre Chuck Schuldiner foram bem aprendidas pela turma. A sofisticada Hate Divine e a mastodôntica Bitter Hate (com sua fodidíssima cadência escovada) são testemunhos inquestionáveis da saudável dívida da banda para com Death antigo. Entre os muitos músicos que passaram pelo Hateworks desde sua fundação, há dez anos, encontra-se Eduardo Martini, guitarrista/vocalista do importante grupo gaúcho de brutal death metal Mental Horror. Vale notar ainda que dois dos membros atuais do Hateworks, o ótimo batera Diogo Pereira e o baixista/vocalista Leonardo Schneider, também tocam no Dyingbreed. De minha parte sou muito mais o Hateworks. Compilação bacana de uma competente banda de death metal da velha escola.

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