Cianeto Discos - lançamentos, parte 3

Publicado em: 13/10/2014 - 01:08

Velho – Senhor de Tudo ep (2013)

Ultra raw black metal é como o Velho classifica sua música. E não é um mau rótulo. Egresso de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a banda é mais uma formação daquelas plagas a rezar no altar do metal negro da velha escola, assim como o Imperador Belial, o Hellkomander, o Sodomizer ou o já lendário Apokalyptic Raids. Mas dizer isso é pouco. Apenas dá uma pista do som dos caras. Dos grupos citados, o Velho é, sem dúvida, o mais cru e menos rebuscado. Não que seus conterrâneos do Rio sejam exemplos de música elaborada. Porém, a verdade é que o Velho soa tosco até para os padrões de um Apokalyptic Raids. O que não significa que a banda seja ruim. Bem ao contrário.
No ep Senhor de Tudo, o Velho mostra um som consistente, furioso e rabugento, totalmente calcado em Hellhammer, só que dotado de piques muito mais rápidos, com elementos de Dorsal Atlântica do Antes do Fim. Os vocais ríspidos e roucos, vociferados em “carioquês”, reforçam a semelhança com a fase clássica da banda de Carlos Vândalo. A estrutura das composições é de uma simplicidade franciscana. Vale registrar, contudo, que os caras nunca deixam essa opção estética descambar num som meramente simplório ou ignorante. Em suma, é música propositalmente simples, mas feita com extremo conhecimento de causa. Meu destaque absoluto vai para a faixa de abertura Uma Trilha sem Pegadas, que se inicia com uma fodida quebradeira headbanging a la Hellhammer/Celtic Frost para depois engatar um speed punkish black metal de abrir roda em show. Sensacional! Já a (boa) faixa título mostra uma faceta diferente da banda, tributária do raw black metal norueguês do início dos anos noventa. É o que se percebe facilmente de seu main riff minimalista movido a trêmolo.
Também consta desse cd o ep anterior da banda: Vida Longa ao Primitivo, lançado em 2009. Nesse registro o Velho está bem mais black (noventista) e menos speed metal, lembrando um pouco os momentos mais toscos do antigo Dark Throne – do qual, aliás, a banda leva um cover bem precário (Under a Funeral Moon). Os vocais, nesse ep, também estão diferentes, até porque a cargo de outro vocalista. Embora não sejam agudos, apresentam uma abordagem bem mais black, aproximando-se daqueles gritos desesperados e meio desafinados que o Burzum e, especialmente, o Forgotten Woods empregavam em seus primeiros trabalhos. Ressalto a melancólica Mais um Ano Esfria, um depressive black metal com baixão limpo na linha Forgotten Woods, e O Único Caminho, porradaria blast beat norueguesa com direito a uma parte doom insidiosamente venenosa.
Por fim, vale mencionar as estranhas letras. Bem além do satanismo infantil, desvelam uma misantropia subjetivista, fatalista, nostálgica e animada por algo que, à falta de expressão melhor, poderíamos batizar como certa dignidade austera e decadente.


Observer – EP (2013)

Black metal de inspiração nórdica, mais precisamente sueca. Riffs e bases dotadas de alguma melodia, cheios de trêmolos nervosos e superpalhetados a revelar razoável complexidade técnica. Um dedilhado aqui, outro ali, por vezes integrado aos próprios riffs. Bateria rápida, mas não tão pesada, amiúde em bast beats, mixada por trás da seção de cordas. Vocais entre o rouco e o agudo, sempre vomitados, com exceção de um par de linhas cantadas em voz limpa (e que não ficaram boas). Baixo absolutamente inaudível. Produção suja, mas sem exageros. Essa é mais ou menos a descrição do som executado por esses potiguares de Natal. Nada que vá revolucionar o mundo. No superpovoado cenário black metal, parece-me pouco para granjear à banda algum reconhecimento. Em suas fileiras se encontram Horrendus (aka Flávio França), guitarrista do Expose your Hate, e Onibas (aka Adriano Sabino), multi-instrumentista do Rancid Flesh. As três faixas do ep são mais ou menos do mesmo nível, com algum destaque para a de abertura, Stultifera Navis.


Exterminate – Ascension ep (2012)

Projeto do pessoal do Mental Horror, o Exterminate, assim como sua banda irmã, também segue os passos do brutal death metal. Porém, com uma diferença: é menos extremo, tanto nas composições quanto na sonoridade. Os riffs, aqui, são mais variados do que no Mental Horror – nem sempre com bons resultados – e, os andamentos, menos fanaticamente rápidos. Também os vocais são menos radicais. O que se mantém exatamente igual são os solos: velozes, limpos e com constante troca de notas. Conquanto seja divulgado como um novo ep, a verdade é que Ascension está mais para o relançamento da única demo da banda, Insane Fate, de 2009, acrescida de uma nova música, justamente a que dá título ao trabalho – claramente inferior ao material da demo. A melhor faixa do play é Repulsive and Extreme Aversion, composta por uns fraseados de guitarra e umas quebradas de ritmo que me lembraram, vagamente, o papa do brutal death metal americano, o titânico Nile. Sinceramente, não curti muito. Prefiro o Mental Horror.


Eternal Violence – Necro Perverso Metal Satânico demo cd (2011)

Power trio de Teresina formado em 2007, o Eternal Violence pratica um retrothrash bacana, de inspiração alemã, notadamente Destruction, com alguma coisa de Exodus do Bonded by Blood. O guitarrista André Death Thrash é muito competente na criação de riffs e, com certeza, Mike Sifringer é seu ídolo – na excelente faixa título do trabalho essa influência vira quase chupação. Outro ponto forte da banda são os vocais, a cargo do baixista Cayo Blasphemous, compostos de rosnados infectados que casam bem com o tipo de som que a banda faz. Como não poderia deixar de ser, a música vai sempre naquele speed headbanging típico, com quebras súbitas para partes sincopadas totalmente fritadas nas cordas. Mais tradicional, impossível. A bateria, coerentemente, não segue a linha mais “explosiva” do thrash americano, mas aquela de batida mais seca e veloz do thrash europeu. Ainda que a seção de cordas pudesse ter ganhado um pouco mais de densidade, a timbragem ficou legal: cortante, aguda e barulhenta. Minha ressalva fica com o baterista, Ramon Deathhamer, que, embora não chegue a comprometer, não parece ser dos mais constantes nem dos mais coordenados, atravessando aqui e ali. De todo modo, o Eternal Violence conseguiu gravar uma demo interessante – em alguns momentos, consegue mesmo empolgar –, repleta de riffs certeiros e boas vocalizações. Mais importante: com o feeling e a sonoridade certos para uma banda que se propõe, com franqueza, a tocar o cult e tradicional speed/thrash europeu dos 80.


Eternal Violence + Carcará – Resistência do Metal Satânico split (2013)

Nesse split o Eternal Violence volta com três temas tirados da sua demo de 2011 (resenhada acima) e outros três do seu ep, Em Eterno Caos, de 2012. Não conheço o ep, mas, a julgar por essas faixas, os caras não mudaram quase nada em relação à sua demo. Para não dizer que não há nada de novo, me pareceu que as guitarras estão um pouco menos Destruction e foram incorporados coros aos refrãos. A produção também ficou diferente, mas para pior: abafada e sem aquela sonoridade cortante de cordas. Destaco a faixa Em Eterno Caos, dotada de uma cadência que convida o ouvinte a bater cabeça.
Já o Carcará vem de Fortaleza e está na ativa desde 2003, ano em que lançou sua primeiro demo. Também um power trio, os caras detonam um retrothrash de orientação americana que me lembrou algo assim como um Nuclear Assault antigo do qual se tivesse eliminado quase toda a melodia. Ouça Armamento Biológico e confira. As faixas são razoavelmente bem compostas, contando com rifferama simples mas eficiente, sem grandes mudanças de andamentos – esses, normalmente, não excessivamente rápidos. O vocal, cantado em português, não é limpo, mas também não chega a ser rosnado. A sonoridade da banda é grave e cáustica, inclusive no que tange à bateria, que soa pesada e cheia. Muito agradável. De curioso há um cover para Sodomy and Lust, do genial Sodom. Embora Sodom antigo não me pareça ter muito a ver com o som dos cearenses, o cover até que ficou ok, tirando os vocais, que não me agradaram. Ao que parece esse ep é composto de regravações de músicas lançadas em demos antigas da banda. Consta ainda um bônus, Forasteiro, diretamente retirado de uma dessas demos, na qual o Carcará soa diferente: menos pesado, mais despojado e com uma veia rocker. Achei o material atual bem superior. Nota: essa é a banda principal dos caras do Sade.

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