Cianeto Discos - lançamentos, parte 4

Publicado em: 19/10/2014 - 23:49

Silentio Mortis + Embalsamado – Illumination/Natimorto split (2013)

O Hell de Janeiro continua a desovar bandas infernais no underground metálico. Agora é a vez do Silentio Mortis e do Embalsamado. Meu amigo, trata-se de duas das bandas de maior potencial que ouvi no estilo nos últimos tempos, dentro e fora do Brasil.
O Silentio Mortis investe fundo no doom metal clássico. Como muitas bandas atuais do gênero, os cariocas adotam um vocal feminino, aqui a cargo de Jana Lemos. Não pense, contudo, que a voz dela seja suave ou “bonitinha”. Isso aqui não é pop metal! A mina manda ver num registro cortante e rasgado, adotando uma impostação sombria e emocional bordejante ao black metal. A cativante faixa Echos from the Ground chega a lembrar aquele peculiar metal negro cadenciado que bandas do Paraná tipo o Amen Corner fazem com maestria. Em outros momentos, como em Thorns of Fate (que puta main riff!), a referência a Candlemass é óbvia, embora esteja longe de cair na mera babação de ovo. A ótima instrumental Sagn e Ishtar’s Violin já vão numa toada mais Manilla Road, com riffs épicos e bateria “marchadora”. Nessa última faixa, vale destacar a pesadíssima e muito bem construída parte climática que surge por volta da metade e segue até o seu final. Sombria a não mais poder. On Black Satene She Lays começa com um dedilhado levemente gótico e termina com riffs pesados novamente à Candlemass. A faixa derradeira, Luna, talvez seja a mais ousada do material, concebida sobre andamentos inusitados e transições fora do convencional – por vezes, pareceu-me que a música ameaçou sair do tempo; aliás, não observei isso somente nessa faixa, um pouco mais de ensaio deve aparar as arestas. A produção do play ficou ótima, soando viva e dinâmica. As guitarras são pesadas e encorpadas (timbragem excelente), bateria “explosiva”, baixo marcante e vocais poderosos e à frente da gravação. Embora tenha gostado do vocal de Jana (e ele é quase do tipo “ame ou odeie”), acho que seria bacana se ela arriscasse, hora ou outra, vocalizações limpas. Em trechos mais melódicos me parece que a música ganharia com um vocal assim. Recomendadíssimo!
O Embalsamado também é adepto do doom metal. Diversamente de seus conterrâneos do Silentio Mortis, contudo, não se limita a flertar com o black metal, mas casa o metal negro com a sua sonoridade de raiz doom, não sendo exagero classificar o resultado como black doom. Assustador como a aparição noturna do cramulhão numa encruzilhada, o Embalsamado é produto da mente doentia do pessoal do Imperador Belial, com a única diferença que, no Embalsamado, o baixista do Imperador Belial faz as vezes do vocal e, o vocalista, a do baixista. E como funcionou bem essa inversão. As linhas de baixo são titânicas. Já os vocais...olha, sinceramente, difícil alguém aparecer com algo mais endemoniado. Entoando letras macabras em português, soam como uma versão black das declamações blasfemas do personagem Zé do Caixão nos filmes clássicos do Mojica. Acreditem, trata-se de um elogio. Em relação às composições, o velho Candlemass exerce influência inegável sobre o som da banda – há uma profusão de ótimos riffs doom capaz de fazer inveja a qualquer banda clássica do estilo –, mas o lance aqui é muito mais maligno, muito mais diabólico. Uma referência próxima talvez seja o cultuado Goatlord, dos EUA, ou o Infërnal Majesty, do Canadá. Mas são apenas aproximações, porque o Embalsamado, sem dúvida, tem personalidade. Embora inquestionavelmente doom, os caras não se furtam a engatar também uma terceira e incluir partes mais rápidas no som, numa vibe meio Celtic Frost do To Mega Therion. Quando isso acontece, os resultados são ótimos, tornado o som até headbanging, como na fodidíssima Mortuário Alvorecer. Em Novo Perecer, faixa que encerra o trabalho, os caras aproximam-se do stoner, com citações a Electric Wizard e até Black Sabbath (ou a melodia vocal chapada sobre o riff grudento não é da escola Iommi/Ozzy?). Um som muito original e consistente, embalsamado em excelente produção. Fiquem de olho nesses cariocas!


The Sceptic – Psychopathological ep (2005)

Material já bem antigo lançado de forma independente por esses gaúchos de Caxias do Sul. Não entendi bem qual é a relação da Cianeto com a banda, mas vamos lá. Trata-se de um death metal não muito esporrento, dotado de alguma melodia, que recolhe influências tanto do metal da morte mais moderno quanto do mais antigo. Alguns solos e riffs complexos mostram a afinidade do The Sceptic com bandas contemporâneas como o Nile, enquanto o vocal, determinadas bases e levadas denunciam que a velha escolha também é fonte de inspiração para os caras. A produção é fraca. Falta sujeira e contundência ao som. Algumas ideias de composição são boas, especialmente nas partes mais brutais de guitarras – ouça-se Paranoiac Illness, por exemplo. Sem embargo, o som, no geral, não empolga. A bem da verdade, chega a ser chato, sensação desagradável que é intensificada pelo uso infeliz da bateria programada. Para finalizar, há duas faixas bônus não creditadas no ep que, fácil de ver, foram gravadas em ocasião diversa. Nelas, a banda soa muito, mas muito melhor. Mais pesada e violenta, mais brutal death metal. Se o full lenght deles, lançado em 2012, for na linha desse último material, pode ser um produto interessante. Se for na linha do ep, melhor esquecer.


The Sceptic – Chaotic (2012)

Alguém aí se lembra do velho Fear Ritual? A banda lançou uma demo razoável nos idos de 1995 e depois desapareceu. Pois bem. Para minha surpresa, o batera deles, Cipriano Maffei, depois de quase duas décadas sumido da cena, dá as caras novamente aqui neste play do The Sceptic. A adição de um batera de carne e osso fez muito bem à banda. Aquela desagradável sonoridade plástica que emanava do som do The Sceptic no ep Psychopathological restou quase completamente eliminada. E não foi somente nesse aspecto que a banda cresceu. As composições estão melhores: mais certeiras, mais redondas e com mais identidade. O estilo, porém, continua praticamente o mesmo. Os gaúchos continuam a investir num metal da morte que dialoga tanto com os aspectos mais modernos como com os mais tradicionais do gênero. Ouça a faixa Filthy Race e comprove. Como mencionei na resenha do material antigo dos caras, realmente acho que se a banda apostasse numa linha mais brutal do death metal, no jeitão das faixas bônus contidas no ep, iria dar-se melhor. De todo modo, o som apresentado em Chaotic é decente e mostra substancial evolução comparado ao fraco ep anterior. NOTA: Como só encontrei link para a faixa Chaotic, vai essa mesmo.


Thanatopsis – Stages of Decomposition (2013)

Diz o lacônico site da banda que as influências do Thanatopsis são Carcass, Dead Infection, Haemorrhage, Last Days of Humanity, Regurgitate, Pahtologist, Necrony, Ulcerous Phlegm, Autophagia, Feculent Goretomb, Dysmenorrheic Hemorrhage, Lymphatic Phlegm e Pulmonary Fibrosis. Não dá para ser mais claro. Splatter clássico com muitos elementos de goregrind moderno é o que se ouve nas trinta e oito faixas deste play. Tudo espremido em trinta e cinco minutos de duração. Tirando breves passagens mais contidas e balançadas, como em Degradeted Foetus, World on Decomposition e Inward Necrotic Eviscerations, a velocidade extrema dá as cartas ao longo do full. Pressa é o nome do jogo. Como sói acontecer no gênero, as músicas já começam dando a impressão de que vão acabar. Intenso e breve como uma picada de agulha. É reconfortante ouvir uma banda de splatter/goregrind que realmente toca splatter/goregrind e não death metal americano da Costa Leste, com letras pornô-misóginas, em velocidade grind. Aliás, a influência de death metal, aqui, como na maioria das boas e clássicas bandas do estilo, é muito limitada, imperando aqueles riffs maniacamente curtos e epiléticos de filiação napalmeana. Ainda assim, o Thanatopsis inclui, em determinadas faixas, funéreas entradas arrastadas que dão aquele clima de “zumbis errando pelo necrotério” tão caro a bandas como o Dead Infection antigo – dê só uma sacada em Anatomorphysiological Deterioration e na demencial faixa de abertura Symphony for a Casket Full of Nematodes. Na minha opinião, tais passagens mórbidas poderiam ser até mais exploradas pela banda. A produção é passável para um disco de splatter, mas poderia ter ficado melhor, caso contasse com guitarras mais encorpadas e um som menos vazado. Projeto levado a cabo por um brazuca e um sueco, que se dividem nos instrumentos (aparentemente, não foi gravado baixo), o Thanatopsis registrou um disco muito divertido, brutalmente honesto e fanaticamente fiel ao gênero, no qual o duo demonstra profundo conhecimento de causa. Espero que um novo material, dotado de produção um pouquinho mais cuidada (não confundir com produção limpa!), não demore a aparecer.


Witching Altar – Vol. 1 - Goat demo (2013)

No começo, assustei. Os primeiros acordes me lembraram de A New Level, do chatíssimo Pantera. Felizmente foi só coincidência. Logo a música de abertura dessa primeira demo do Witching Altar, de Recife, revelou um doom preguiçoso, a um passo de virar stoner. Climão lânguido e sinuoso, com vocal lento e empostado, tudo embalado num instrumental pesado, contemplativo, cheio de referências líricas ao nosso amigo capeta e ao left hand path. Som perfeito para se esticar no sofá e fazer uma boa fumaça. O velho Sabbath e o Pentagram, esse último de quem os caras levam um cover de respeito, Relentless, dão as marcas do som. Destaque para as linhas vocais: melódicas e obscuras no ponto certo. A timbragem aveludada das cordas também me lembrou de Saint Vitus e, uma bateria eventualmente um pouco mais animada, de Witchfinder General. Mas o Witching Altar não é clone de nenhuma. Embora ambas as faixas autorais que integram a demo sejam ótimas, meu destaque vai para The Price We Pay, viciosamente sinistra e grudenta, com um refrão muito eficiente. A banda é criação de Peter Vitus (guitarras) e T. Witchlover (baixo e vocal). O primeiro também faz parte do ótimo Beast Conjurator, banda revelação do death metal de Recife, o segundo já esteve nas linhas do Whipstriker do Rio. Espero que a dupla dê prosseguimento ao Witching Altar, porque o som da banda é bacana demais para ficar limitado a meras duas faixas autorais de uma demo.

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