Cianeto Discos - lançamentos, parte 5

Publicado em: 02/11/2014 - 20:23

Aggresion – Forja Infernal (2012)

Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, é a cidade natal desse surpreendente Aggresion (escrito assim mesmo, com um só “s”). A banda, fundada em 2004, lançou, quatro anos depois, sua única demo e agora chega a seu primeiro full lenght. Pela capa propositalmente ingênua, assim como pelo título do álbum, achei que se tratava de mais uma formação retro-thrash oitentista. Qual nada! O negócio aqui é muito mais sofisticado. Embora o clássico thrash da velha escola tenha seu lugar no som do Aggresion, o mote dos caras é o black metal feito na Suécia a partir de meados da década de noventa. Vale dizer: blast beats secos e intensos, rifferama rápida, elegante e bem tocada, gravação discernível. Em particular a palhetada do guitarrista Adriano Caverna assemelha-se àquela técnica de palhetada meio dedilhada do falecido Jon Nodtveitd nos primeiros discos do Dissection. Aliás, as composições, em geral, vão igualmente nessa linha, resultando num black/death porrada, veloz, encapetado, mas também complexo, extremamente bem executado e com grande senso melódico. Partes dedilhadas, solos heavy metal e harmonias bacanas abundam nas músicas. Os vocais são totalmente abertos e rasgados, mas nunca descambam para o “necro” norueguês. A produção ainda pode melhorar, mas é correta, permitindo ouvir com facilidade tudo o que está a ser tocado. Tenho por regra destacar uma ou outra música na resenha, mas aqui está difícil, pois todas são ótimas e revelam particularidades que despertam a atenção do ouvinte. Ou não é assim com a thrashy e empolgante Infernal Forge, ou com Abraxas de Uvall, repleta de mudanças de andamento muito bem urdidas e de riffs infernais, ou com Satanic Sabbath, que vai numa pegada death pesadíssima, embalada por vocais guturais, ou com a dramática Six Hundred and Sixty Six, de entrada superclimática em dedilhado, acompanhada de um baixão límpido preenchendo tudo à volta, ou com a visceral e ao mesmo tempo épica Propiciação Guerreira, hino de guerra bradado em português? Coisa realmente fina. Banda de alta categoria, que sabe mesclar extremismo musical com sensibilidade estética apurada.


Fleischwald – Global Intoxication + War Machine (2011)

Compilação que reúne os dois breves full lenghts, lançados anteriormente em tiragens muito limitadas, dessa desconhecida one-man band italiana de grindcore tradicional. São músicas curtíssimas construídas sobre bases velozes e riffs puramente grind (não há espaço nenhum para death metal) munidas de vocais graves e secos. Tudo executado pelo mastermind da banda, Andreas Eder. Basicamente é isso. A diferença entre um disco e outro reside apenas na produção, que está bem mais clara no segundo full (War Machine). A verdade é que o material não é nada bom. Trata-se de música completamente destituída de carisma, que peca por absoluta falta de inspiração. Inspiração não para criar algo novo – obviamente, não é a proposta –, mas até para reciclar o que as bandas clássicas de grind já fizeram. Entenda-se: não há nada errado em se (re)fazer um som tradicional, puro e sem invencionices. Porém, se o caminho é esse, a banda há de ser capaz de reproduzir aquilo que o gênero tem de melhor. Infelizmente o Fleischwald não foi bem sucedido nessa tarefa. Ainda que os riffs e as bases, nas partes rápidas, sejam corretos, não empolgam, tornado a audição das músicas, ao fim e ao cabo, desinteressante. Outros dois fatores contribuem para extremar esse desinteresse: a péssima bateria eletrônica (embora não esteja creditada, tenho quase certeza de que é) e as aborrecidas partes sincopadas que surgem no meio das músicas. Ora, uma das grandes virtudes das velhas bandas de grind era justamente a habilidade para introduzir mortais partes quebradas em meio à rifferama insanamente veloz. O Fleischwald falha rotundamente nesse quesito, oferecendo-nos cadências paupérrimas e dolorosamente repetitivas. Chamou-me a atenção, ainda, a total ausência de elementos hardcore no som da banda, notoriamente uma das característica fundamentais do grind. Quem sabe a adição de um baterista de carne e osso, que saiba como fazer uma batida hc, venha a contribuir para a necessária subida de qualidade no som do grupo. Até lá, não me animaria a ouvir novos registros do Fleischwald.


Rotten Penetration – Pathologic Porn Gore Splatter (2013)

Segundo full lenght desses gaúchos de Bento Gonçalves, na ativa desde 2002. O título do trabalho não deixa margem para dúvida. Trata-se de um brutal death metal competente, de linhagem americana, marcado por boas ideias nos riffs (de fato, não soam nada genéricos), transições bem feitas e constantes trocas de andamento. Os vocais são absolutamente guturais, com eventuais incursões num registro estridente e rasgado, de um lado, e naqueles pig squeals típicos do gênero, de outro. A bateria é demolidora, cheia de pequenas variações, soando sempre pesada e agressiva. Algumas raras partes experimentais surgem no correr das músicas, a exibir riffs menos convencionais e soluções rítmicas pouco comuns, como se ouve em Why Do I Kill, mas nada excessivo. Faixas como Fucking Cannibalism mostram bem a brutalidade (moderna) da banda, enquanto outras, como The illusion of Flesh, composta de ótimas bases em trêmolo e riffs destruidores à Cannibal Corpse, já flertam com a linguagem mais tradicional do metal da morte. O Cannibal, aliás, é a principal referência dos caras, principalmente nas guitarras faiscantes e no fraseado distinto do baixo. A timbragem da guitarra, principalmente nas harmonias e nos solos, poderia ter ficado mais reverberada, menos “magrinha”, mas não compromete. Muito boa banda, responsável por um som redondo e bem resolvido.


The Jokke – While Flame Burns (2009)

A capa e o nome da banda me fizeram pensar em power metal. Nada disso. Death metal moderno, com riffs escaleiros e cheios de firulas, é a base do som do The Jokke. Embora também haja partes de guitarras convencionais, montadas sobre tradicionais power-chords, a proposta desses portoalegrenses é investir em composições ousadas, que revelam razoável dificuldade técnica na sua execução. A batera, a cargo do violinista de formação Maurício Weimer, vai na mesma linha: não se furta a incorporar os clássicos blast beats, mas prima pela variação e quebras de ritmo. Ouça a complexa Holy Inquisition e comprove. A produção, ao contrário do que costuma se passar com bandas mais técnicas (que preferem som limpo e cristalino), é abafada, até certo ponto, opressiva, mas não chega a ser demasiadamente suja. Detalhe bizarro: há uma claríssima variação de volume entre as músicas (as gravações são de sessões diferentes?), que ora é mais baixa, ora mais alta. Trata-se de erro grosseiro, que não dá para entender como passou batido na masterização. O The Jokke executa um som pesado, sem dúvida, mas não diria que é realmente extremo. Para o meu gosto, soa complicado e moderno demais. De todo modo, pode agradar quem curte um death da escola contemporânea, inventivo e com apelo técnico.


Sangrenta + Annihilate! – Final Thoughts of a Dying World split (2013)

Split reunindo duas obscuras bandas de grind e goregrind.
A one-man band Sangrenta vem de Viamão/RS. Concebida por um ex-integrante do DyingBreed, oferece-nos um goregrind movido por bateria eletrônica, de forte pegada metal e vocais ultradistorcidos. Um toquezinho de crust também dá para notar em alguns raros momentos. O som do Sangrenta tende a ser rápido. Porém, é justamente quando a banda reduz a velocidade e assume um passo cadenciado que vem a obter seus maiores logros. É o que se ouve, por exemplo, em Combustão Espontânea e O Inimigo Final. Um cover para Sodomized at the Gay Parade, do insano Stoma, e outro para Grinder (?!), do Judas Priest, integram o material. Banda de goregrind fazendo cover geralmente produz resultados bizarros – usualmente hilários. Aqui não é muito diferente. Decerto o som do Sangrenta, embora não seja, realmente, nada de mais, seria bem melhor se a produção do play não fosse surpreendentemente limpa. Ora, goregrind sem sujeira na gravação é algo que parece atentar contra a própria natureza do estilo. A meus ouvidos, essa escolha de produção foi infeliz e teve como consequência eliminar quase toda a brutalidade e a contundência da música. NOTA: Infelizmente, não consegui nenhum link para as músicas (pessoal, hoje não se pode abrir mão da internet pra divulgação!).
O austríaco Annihilate! já tem uma proposta bem mais radical do que a do Sangrenta. Os caras misturam elementos do noise, do crust, do death metal e do grindcore contemporâneo, assim como coisas mais experimentais, para fazer um som híbrido, algo estranho, primordialmente veloz, com muita quebradeira, e cáustico. Os vocais principais são gritados, na linha rasgada dos antigos vocalistas de grindcore. Os andamentos variam entre levadas à velocidade da luz, speeds e partes arrastadas. Guitarras fora do padrão (quase desafinando), cheias de pequenos ruídos e diferentes camadas sonoras, comandam as músicas. De modo geral, a banda soa moderna, o que é ressaltado pela produção mais limpa e clara que foi adotada. Meu destaque fica com as faixas Kafkaesek, porrada crust certeira, e Sleepwalker, do seu meio para o fim assombrada por um espírito death metal que me lembrou, vagamente, o Autopsy em seus momentos menos convencionais.

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