Cianeto Discos - lançamentos, parte 6

Publicado em: 08/12/2014 - 17:27

Diversos – Zombified Humanity Vol. 2 coletânea (2013)


Coletânea lançada pela Cianeto, em parceria com meia-dúzia de gravadoras/distribuidoras, apresentando dez bandas extremas cavadas ao mais obscuro underground. Farei observações rápidas sobre cada uma delas:

Maharishi – grupo de brutal death metal vindo do Ceará. Som agressivo cantado em português. Faixas velozes e bem curtas, com um jeitão grindcore. Alguns riffs são realmente bacanas. A banda, porém, ainda precisa maturar.

ShitFun – grindcore da velha escola, com o tradicional duplo vocal: um gutural (predominante) e outro rasgado (incidental). Muita influência de crust, com vários andamentos D-beat. Pouca sensibilidade para o metal. Letras estranhas em português: todas têm nomes de mulher. Banda correta, mas nada além disso. São de Pernambuco.

Putrid Semen – death metal na linha americana remotamente assemelhado ao Impetigo. Som mórbido e pesado. Alternância de partes rápidas, outras meio-tempo e outras arrastadas. Bons riffs. Vocal ultragutural e cheio de efeitos, pendendo mais para a linha moderna do death. As partes de bateria precisam melhorar. Promissora banda do interior baiano.

Boneache – divertida banda de goregrind pernambucana. Vocais totalmente pirados, que vão de rosnados suínos a sussurros infecciosos (esses últimos me lembraram até de Beherit antigo). Bateria eletrônica. Afinação e timbragem das cordas que não é excessivamente baixa nem grave. Som mais partidário do humor negro do que da versão “dead serious” do estilo.

Raw Decimating Brutality – death/grind português estranhamente fascinado por temas de acidente de trabalho na construção civil. Pesada e rápida, sem dúvida, mas não é das bandas mais extremas do gênero. Falta um pouco de morbidez e criatividade nos riffs. Nos riffs, porque, nas letras, a criatividade sobra. Ou você já viu por aí alguma outra música intitulada Limpei o Cu a um Saco de Cimento?

Agamenon Project – grindcore ultratradicional, supersônico, cortante, politizado e direto ao ponto. Vocal quase sempre gutural e monocórdico (nada de vômitos death metal). Som corpulento e pesado, dotado de riffs competentes e variações de andamento na medida certa. Com uma produção melhor, tem tudo para gravar um material excelente. Trata-se de uma one-man band. São aqui de Brasília.

Erro – esquisitíssima banda capixaba que detona um grind/HC todo quebrado e conduzido por uma rifferama infernal e dissonante. Destaque para as excelentes e inventivas partes de baixo. Lembrou-me de coisas avantgarde americanas da gravadora Relapse, tipo o grind moderno do Pig Destroyer, o noisecore do Agoraphobic Nosebleed ou mesmo o velho grind do Human Remains. Diferente.

Slag – banda paulista de hardcore old school que segue a trilha americana antiga do Agnostic Front. Nota-se um toquezinho europeu de coisas mais modernas como Disgust e também de metal. Músicas intensas e agressivas, como o gênero exige. Vocal berrado e refrãos gritados em coro. Som bem certeiro.

Mata Borrão – crust grave e pesado, com evidente queda pelo death metal. Riffs sombrios, mezzo metal, mezzo crust. Ótima timbragem de bateria: densa e encorpada. Clássicos vocais duplos no estilo Extreme Noise Terror. Momentos headbanging aqui e ali. Banda mineira.

Drugwhore – projeto experimental maluco do Gil Dessoy, dono da Cianeto Discos. Som totalmente arrastado comandado por um baixo aleatório e bizarramente distorcido. Não há guitarras. Vocais goregrind subsônicos. Dá pinta de que as “músicas” foram compostas durante o processo de gravação.



Agathocles + Preguh + Archagathus – 3 Times Tortured...but Still Alive!!! split (2013)


O que dizer do Agathocles? Que eles continuam firmes na sua missão de gravar splits com todas as bandas da face da Terra? Que eles são capazes de gravar (e, pior, lançar em splitcd) uma jam improvisada feita num churrasco de domingo? Tudo isso é verdade. Porém, é igualmente verdade que, nesses splits absurdamente toscos, não raro está registrada música maravilhosa. Todo o material do Agathocles reunido aqui já foi lançado anteriormente. Trata-se das faixas contidas no ep Cellar Throne, no ótimo split ep com o Nunslaughter, no split ep com o Laserguys e num par de compilações, além de duas faixas ao vivo gravadas num estúdio no Brasil, quando a banda esteve em nosso país em 2007. O som é tudo que se espera dos belgas: um grindcore old school bordejante ao splatter, com muitos elementos de crust e death metal, ou seja, aquilo que eles batizaram de “mincecore”. Confesso que me desinteressei um pouco do som do Agathocles na década passada, quando a banda priorizou seu lado crust à custa dos elementos de metal e splatter. A meu juízo, o som despencou de nível. As composições tornaram-se previsíveis e excessivamente desleixadas – isso para não falar da execução. Sem embrago, parece que, nos últimos tempos, eles recuperaram parte da consistência como músicos, bem como um pouco da veia mais metal da banda. É o que se nota aqui. O clima das músicas voltou a ser denso e mórbido, como na época clássica do Agathocles, nos saudosos anos noventa. A prova pode ser ouvida em Nazional Sozial(ist) Security, na qual um riff imundo à Master/Deathstrike massacra de modo inclemente nossos ouvidos. De curiosidade há duas faixas bem antigas, gravadas em 1998, em que as velhas influências de splatter dos belgas soam evidentes.

O Preguh é brasileiro. Mais precisamente, de Santos. Entre seus integrantes acha-se gente que milita há décadas no underground nacional, como o batera Luiz Cláudio, atual responsável pelas baquetas do Vulcano, e o guitarrista Arthur, que gravou o clássico Toxin Diffusion, então na função de baterista, do Psychic Possessor. A música do Preguh não é fácil de classificar. A base parece ser um crossover de thrash metal e punk, no qual predomina o primeiro. Uma dose pequena de grind também faz parte da mistura. O vocal, parcialmente rosnado e em português, é totalmente thrash brazuca anos oitenta. Já os refrãos são bem balançados, no estilo HC pula-pula de Nova Iorque, e entoados quase sempre em coro por toda a banda. Para fazer uma comparação esdrúxula, diria que eles soam como um versão de RxDxPx do Anarkophobia com o velho vocal do Taurus ou do Anthares e os refrãos do Madball. Taí a faixa Sem Sofrer, que não me deixa mentir (demais). Um som honesto, algo ingênuo, com boa produção e que se ouve com facilidade.

Fecha o split o Archagathus, do Canadá. Para quem não conhece os caras, basta dizer que a primeira faixa do seu material é intitulada Hey Agathocles e eles declaram expressamente fazer “mincecore”. Obviamente os belgas liderados por Jan Frederickx são a grande fonte de inspiração desses canadenses. O som é bem o que eles dizem. Cuida-se de um grindcore old school com climão splatter, pesado à beça, dotado de guitarras subsônicas, vocais monocórdicos e megaultraguturais. Já a produção é abafada, tosca e enlameada. Ainda em comparação com o Agathocles, a banda é mais hermética, mais sombria, menos punk, menos variada e também menos precisa na execução das músicas, principalmente nas partes grind. É um som legal, realmente extremo, indicado para quem acha que o mincecore já estava começando a “farofar” com a banda que o inventou. Ouça Special Infection e verás o que digo. Além de inúmeros splits, os caras já cotam com três full lenghts em sua discografia. NOTA: Archagathus era filho de Agathocles de Siracusa, famoso personagem da história grega antiga.



Amaduscias – War and Conflicts (2013)


Compilação contendo dois registros em ep do trio gaúcho Amaduscias: Only One Nation, de 2008, e Surrounded by Darkness, de 2010. Trata-se de um death/black metal de orientação sueca, na linha Dissection, In Aeternum, Necrophobic. Vou aqui abrir um parêntese importante. Em certos estilos de música extrema não há muita relevância em criticar-se questões técnicas do tipo observância de tempo, clareza da palhetada, constância na batida da batera, etc. Assim se passa, por exemplo, em vertentes mais viscerais e instintivas da música extrema como o grindcore tradicional, o crust ou o raw black norueguês. De outro lado, já há estilos em que a atenção a esses quesitos é fundamental. O black/death sueco, por sua própria estrutura mais elaborada, é um deles. Infelizmente o pessoal do Amaduscias se revela inapto para o estilo musical que abraçou. Simplesmente porque não domina suficientemente, ainda, seus instrumentos. De fato, há uma infinidade de erros de execução, alguns realmente dolorosos, no curso do disco. Desde palhetadas imprecisas, que causam a reverberação indesejada de cordas próximas, oscilação involuntária na velocidade da música, problemas relativos a timbres, afinação e transições. Enfim, é muita coisa. Fica até difícil avaliar as composições, pois a música praticamente se perdeu no caminho entre a concepção e a realização. Decerto o pessoal do Amaduscias apresenta algumas boas ideias. Dá para notar, por exemplo, na faixa Surrounded by Darkness. Mas é muito pouco perto da imensidão de equívocos que constitui o material. Não é papel do crítico espinafrar ninguém. Nem é ao que me proponho neste sítio. Porém, deve-se reconhecer, com absoluta sinceridade, que, como está, não dá. É imperioso ao pessoal do Amaduscias suar mais nos instrumentos. Isso ou então mudar de estilo. Somente aí será possível avaliar com alguma justiça a qualidade de suas composições.



Ataque Violento – Faces do Horror (2013)


Trio paraibano de Campina Grande que investe firme num deaththrash oitentista soco no estômago. É seu primeiro full lenght, depois da demo de 2009. O bagulho é bem inspirado por Dark Angel, do Darkness Descends, e por Slayer, do Reign in Blood. Vale dizer, não há nada sofisticado ou mais elaborado aqui – sequer há espaço para solos de guitarra. É desgraceira da braba, com muita corda fritada em “mi”, palhetada nervosa em trêmolo, power-chords, bateria rápida e marretada, bumbos duplos metralhados, baixão engordurado, quebradas de ritmo perfeitas para bater cabeça e um vocal puxado para o death metal tradicional. Sobretudo há peso, muito peso. A produção é boa. Deixou o som claro e encorpado. Gostei especialmente da timbragem carnívora das guitarras e da densidade cheia da bateria. A pegada dos caras é brutal, chegando a recordar aquela intensidade e crueza das velhas bandas casca-grossa de Belo Horizonte, como o Sepultura (lembram de quando o Sepultura tocava metal?) e o saudoso Mutilator. Ouça a pútrida faixa título, Faces do Horror, e veja se não tem a ver. Embora o Ataque Violento tenha forte ligação com o thrash extremo clássico americano, há mais em sua música. Na ótima faixa Heavy Metal, por exemplo, fica evidente a dívida do grupo para com o black/thrash alemão, principalmente Destruction e Sodom das antigas. No fechamento da conta, um ou outro riff não funciona muito bem e a banda pode ficar ainda mais precisa e mortal na execução das músicas. De todo modo, o que se ouve aqui já é realmente do cacete. Bang or be banged!



Tjolgtjar – The New Age (2012)


Projeto black metal americano pra lá de esquisito, o Tjolgtjar é fruto das pirações de The Reverend, sujeito responsável por tudo na banda – suspeito até que pela produção do play. Dizer que o som é black metal dá apenas uma pista do que se ouve aqui. Há também elementos de stoner, heavy tradicional, psicodelismo, progressivo, hard rock, classic rock e country. Veja-se bem. Não estou dizendo que as músicas têm uma parte black, outra country e outra sei-lá-o-quê. É tudo isso junto, tudo ao mesmo tempo agora. Pegue-se, por exemplo, a faixa The Tjolgtjarian, em que a banda atira simultaneamente para todos os lados (e, na minha opinião, não acerta em praticamente nada). É certo que há momentos black metal mais ortodoxos, como em Mountain Demons ou em Blood Rites of 5, mas, mesmo nessas ocasiões, o negócio está longe de ser linear. Ressalte-se que existem, sim, faixas bacanas, como o hardão amalucado Only Return e a heavy rock (com vocais tipo King Diamond/David Byron) Trance and Menschenopfer. Porém, no geral, é uma salada de jiló, kiwi, beterraba e abobrinha, com muito catchup por cima. Deve ter quem goste, mas, para mim, é indigesto. Não me entendam mal. Nada tenho contra quem faz hibridismo ou experimentação musical. No caso do Tjolgtjar, entretanto, o resultado da alquimia soa descosturado e confuso por demais. Uma última nota sobre a banda e que dá, indiretamente, o seu nível de maluquice: só no mencionado ano de 2012 o Tjolgtjar lançou quatro full lenghts! É ter muito o que dizer, não?

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