Cianeto Discos - lançamentos, parte 7

Publicado em: 11/01/2015 - 17:42

Agamenon Project – Faces of Death (2013)

Anunciado como o primeiro full lenght do Agamenon Project, Faces of Death é composto de onze faixas autorais e mais um cover (do sueco Regurgitate) distribuídos em pouco mais de treze minutos. À exceção de duas mudanças, a banda faz o mesmo tipo de som apresentado na coletânea Zombified Humanity, resenhada aqui no sítio semanas atrás. Vale, portanto, repetir. Trata-se de grindcore ultratradicional, supersônico, cortante, politizado e direto ao ponto. Vocal quase sempre gutural e monocórdico (nada de vômitos death metal). Som corpulento e pesado, dotado de riffs competentes e variações de andamento na medida certa. Lust, porrada que abre o play, é um bom exemplo das qualidades da música do Agamenon Project. E quais são as duas mudanças? A primeira é a produção, que, felizmente, está bem superior. De fato, a música da banda brasiliense, em Faces of Death, soa mais precisa e afiada, sem que, para tanto, tenha-se renunciado a uma única grama de seu peso hecatômbico. A segunda diferença é que os riffs estão um pouco mais variados, incluindo um toque de death metal, como se pode constatar em Satan’s Worm. Porém é coisa sutil. Nada para assustar os grinders mais conservadores. Todas as faixas são certeiras e o disco ouve-se facilmente, do início ao fim. A curiosidade fica para a música que, justamente, dá título ao trabalho, Faces of Death, pois não se cuida de um grind, mas de um crust casca-grossa com direito a solinho dischargeano. Muito bom disco.


Morterix – The Roots of Ignorance (2012)

Pelo que pude apurar, esses portoalegrenses tocavam black metal antes de migrarem para o thrash. Com o mesmo nome, registraram um full lenght, no estilo antigo, em 2004. Bom, isso é passado. O presente dos caras é um thrashão descompromissado, agitado e, por vezes, com certa vibração punk rock – o que é reforçado pela timbragem mais aberta da guitarra. As composições são simples, mas bem feitas e executadas, como se constata na certeira faixa de abertura Caravels of Diseases. A produção é clara e a mixagem deixou a cozinha explodindo na cara, especialmente o baixo (que soa cavalar), a cargo de Lucas Jacomelli. As músicas seguem aquele padrão mais clássico do thrash americano: rifferama “reta” e andamento que, no máximo, engata a terceira marcha. Bem, para falar a verdade, hora ou outra uma onda hardcore infiltra-se no som dos gaúchos. Quando isso acontece, dose extra de rapidez acrescenta-se à bateria, martelada com competência por Fabrício Thrasher. Confira-se, a esse propósito, Modern Creatures. Partes cadenciadas com forte apelo mosh irrompem no curso das músicas, de forma bem natural, como se pode ouvir na faixa título e na empolgante The Evil Nail. Vale destacar, ainda, o vocal rouco e rachado do guitarrista Rodrigo “HC” Chávez, que cria um contraponto interessante com o som mais limpo da banda. Do antigo repertório do Morterix foi regravada Burning the Churches, que, afora o nome, nada tem (mais) de black metal. De bônus há um cover escondido para Crise Geral, da fase crossover do RxDxPx. Um play divertido, que se ouve com facilidade, principalmente com uma garrafa de cerveja à mão.


Swords at Hymns – My Freedom... Forgotten in a Gray Dimness ep (2013)

Banda de Caxias do Sul, no interior gaúcho, que executa um black metal melódico, épico, majoritariamente cadenciado, dramático e empostado. Enfim, um som que vai naquela linha mais amena do estilo, com teclados onipresentes (embora não chegue a ser sinfônico), muitas partes dedilhadas e guitarras embebidas em melodia. Os vocais variam de um típico registro mais agudo e rasgado a outro grave, lembrando um pouco o Cradle of Filth. A gravação está prejudicada, soando vazada e pouco clara. Tendo em vista a proposta da banda, poderia ser melhor. Há muita influência de metal mais tradicional. Prova disso são as passagens harmônicas e as levadas quase power metal que abundam nas músicas. É o que se ouve, por exemplo, em When We No More Among Stay. As composições são bem feitas, ainda que, por vezes, as melodias se aproximem perigosamente do brega. Notei uma pitada leve de gótico em certos momentos, na veia Paradise Lost e My Dying Bride. Coisa pouca, entretanto. Confesso que para o meu gosto falta pegada ao som do Swords at Hymns, mas a banda pode agradar quem curte o lado mais brando do black metal.


Despot – Satan in the Death Row (2013)

Mais uma one-man band, o Despot é criação solitária do músico mineiro Marcelo Murrer. O lance do Despot é o black metal. Muito mais do que o típico som norueguês ou sueco da second wave, o mote da banda é o metal negro das antigas. Grand Belial’s Keys (notadamente nas melodias), Bathory e formações de speed black metal oitentista seriam, no aspecto estrutural, as referências mais óbvias, ainda que o som aqui apresentado esteja longe de constituir cópia de qualquer um. Riffs rápidos e melodiosos, construídos sobre uma base thrash, revezam-se com outros mais cadenciados, por vezes dotados de feeling épico, e com um terceiro tipo, mais raro, movido a trêmolos noventistas. Coros solenes e vocais operísticos reforçam o mencionado caráter épico – até meio viking – de algumas faixas. Embora as guitarras tenham ficado com uma timbragem legal e reverberante, faltaram tons de grave (fato agravado pelo uso sempre complicado da bateria eletrônica), o que acabou por retirar parte do peso que às músicas poderia ter tido conferido. As faixas tendem a ser longas, com muitas mudanças de riffs, bases e andamentos, como se pode ouvir em Matriarch. Os vocais apresentam variações, ainda que o principal siga os clássicos agudos rasgados do estilo. Conquanto as composições não sejam propriamente ruins, falta ao Despot uma lufada maior de inspiração, de sorte a habilitá-lo a forjar momentos marcantes ou de maior interesse. A verdade é que se ouve o disco com a mesma facilidade que dele se esquece. Um som com personalidade, mas que, infelizmente, não contagia.


Tapasya – Unrelenting Terror ’97 - ’02 (2013)

Projeto do ex vocalista do Rot, Jeferson Pizoni, o Tapasya detona um grindcore tradicional com elementos de crust e punk, sujo, pesado, grosseiro e incrivelmente mal produzido. Consta dessa compilação, aparentemente, todo o material registrado pela banda durante os cincos anos de sua existência: o split tape com o Stomachal Corrosion e as demos Where Is the Wine (em que os caras exibem mais claramente sua dívida com o punk) e Intoxicated. A melhor, ou menos pior, gravação é a do split, na qual as guitarras, curiosamente, soam reminiscentes a Hellhammer – de fato, o pessoal está mais para Agathocles do que para Napalm Death. Nas demos o negócio está realmente prejudicado, beirando o inaudível na segunda delas. Em comparação com o Rot, a música do Tapasya é mais tosca e primitiva. Embora o som seja uma maçaroca só, dá para sacar facilmente a qualidade elevada das composições. Obviamente o pessoal envolvido no projeto entendia do riscado. Difícil destacar uma ou outra faixa em meio aos sessenta e três petardos que compõem o play – algumas músicas contam com mais de uma versão. Deixo a escolha por conta do leitor/ouvinte (se você conseguir encontrar um link para ouvir na net; eu não achei, só pra baixar...). Vale registrar que ainda integram o material dois bons covers: um do próprio Rot e outro do Shitlickers, ícone do velho crust sueco. Compilação bacana, indicada para quem não se melindra facilmente com som assumidamente low-fi.

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