Darkness "Darkness"

Publicado em: 25/06/2014 - 15:37

Em meados de 1993 estive no Chile a turismo. Como sempre faço, aproveitei para visitar algumas lojas de discos, daquela vez em Santiago. Numa delas encontrei um pequeno tesouro: demos originais de várias bandas de metal chilenas. Entre elas havia uma do Darkness, banda da qual nunca antes havia ouvido falar. O vendedor me assegurou que se tratava de um deaththrash de primeira. Comprei. Bem, o cara estava certo. Desde então o Darkness passou a ser uma das minhas bandas “desconhecidas” de cabeceira.
Mais de vinte anos após seu lançamento, a gravadora chilena Australis finalmente reedita, em formato cd, a fantástica demo do Darkness. É chover no molhado ressaltar a qualidade das bandas chilenas do fim dos oitenta, início dos noventa. Depois do Brasil, o Chile gestou a principal cena sulamericana da época de ouro do metal. E o Darkness foi uma de suas bandas mais destacadas. Se não logrou alcançar o sucesso internacional do Pentagram, do Bloody Cross ou do Massacre, não ficou a dever-lhes nada em matéria de competência musical.
Gravada em junho de 1989, Demo I foi o registro solitário deixado pela banda ao cabo do curto par de anos em que esteve na ativa. Ouve-se aqui um deaththrash absolutamente primoroso, repleto de riffs inspirados, bases rápidas, andamentos variados, quebradas súbitas de ritmo, cadências de arrebentar o pescoço, vocais guturais levados na raça (ao estilo brazuca), timbragem ranzinza e encorpada de cordas, solos caóticos, baixo engordurado. Mais do que tudo chama a atenção a notável capacidade dos chilenos de criar temas nos quais um sem-número de mudanças se sucedem sem que a unidade da música seja comprometida. E tome riff foda atrás de riff foda! A música do Darkness revela bem o que se passava naquela época dourada do metal, quando o thrash metal extremo atingia seus limites e desembocava no insurgente death metal. É um som tão íntegro e verdadeiro que, honestamente, chega a emocionar, principalmente quem viveu a época.
Estruturalmente, as músicas seguem o padrão de bases death rápidas com quebradas para partes thrash sincopadas. Precisamente o que se convencionou chamar, no período, de deaththrash. Um som absolutamente clássico e seminal que, infelizmente, ficou meio esquecido depois que o death metal noventista ganhou completa autonomia em relação ao thrash dos oitenta. Mas que não haja enganos. O Darkness está longe de ser cópia de quem quer que seja. Embora traços de Death antigo e de Sepultura do Morbid Visions possam ser notados, o som dos caras tem personalidade própria.
As quatro faixas constantes da demo, uma delas é instrumental, são não menos do que excelentes. Ainda assim destaco Under the Grave (se você não bater cabeça convulsivamente com as cadências que surgem depois do main riff inicial, metal definitivamente não é a sua) e Struggle till Death (arrebatadora suíte death metal).
Acompanha o relançamento da demo um ep de cinco faixas gravado recentemente, em 2012. Não há nada exatamente novo nele. Trata-se de regravações de temas antigos do Darkness (alguns deles ainda eram inéditos) ou da banda que o sucedeu, o K.I.C. Embora as músicas não sejam novas, a sonoridade é. Mais moderna e clara, afasta o Darkness da velha rispidez deaththrash e o aproxima de estilos mais polidos como o black/death sueco, repleto de passagens climáticas. A nova formação - que conta apenas com o guitarrista original, agora acumulando a função de vocalista, Maurício Kong –, inegavelmente, do ponto de vista musical, é superior à primitiva. Prova disso se ouve, por exemplo, na regravação de Under the Grave. Mais bem arranjada, tocada e gravada, permite ao ouvinte notar detalhes como uma leve harmonia no riff principal, que passa quase despercebida na versão da demo. Sem embargo, como sói acontecer com o metal extremo, arranjos mais redondos e produção mais profissional nem sempre garantem melhores resultados. Bem ao contrário. A verdade é que a sonoridade da demo de 89 exala um carisma, uma sinceridade, uma espontaneidade que nenhuma regravação moderna pode superar.
Não sei se a banda pretende seguir em frente. De minha parte, preferiria que o nome Darkness fosse deixado no passado. Ao menos enquanto não tomarem parte dessa nova encarnação mais integrantes originais ou o som não for mais fiel ao que a banda fazia nos primórdios. Só minha opinião.
Material obrigatório para todos os deathbangers dos velhos tempos, assim como para todos aqueles obcecados pela fascinante história do verdadeiro metal de morte sudamericano.


Capinha original da clássica demo de 89


Fotos da antiga formação

25/06/2014 - 17:29
Norma

Achei essa resenha bem madura e completa. Parabéns!

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