Difamator "Malefic Anticlerical and Antichristianity"

Publicado em: 02/12/2014 - 23:55

Na virada para os anos noventa a moda do death metal, de linhagem sueca ou americana, começava a varrer o mundo. O apelo era forte, mas nem todos aderiam. Alheios ao mainstream, alguns poucos fanáticos incuráveis, uma legião de criaturas vis, nefandas, soturnas, musicalmente deformadas, dolorosamente blasfemas, grotescas em seu primitivismo e ominosas em sua mórbida devoção, resistiam à modernidade e persistiam nos vetustos mistérios do metal negro.
No Brasil, em especial na Bahia, em Minas Gerais e em São Paulo, esses acólitos das Trevas se reuniam e, em liga com Satã, formavam bandas malditas das quais, atualmente, poucos têm lembrança. Surgiam, pois, hordas como Azoth, Necro Disseminator, Abaddon, Bestymator (ainda hoje na ativa), Execration, Crucificator, Necrolust e, a que nos interessa aqui, Difamator.
O paulistano Difamator foi vomitado sobre a Terra em 1991 anno bastardi, numa conspiração bestial forjada entre Cerberus, guitarra, e Profanus, bateria, ambos com experiência em outras formações metálicas da região. O vocalista Baal Hammon juntou-se ao grupo logo após e, com essa formação (sem baixista), gravaram a primeira demo, Latus Obscurus, já no ano seguinte. O registro, composto de uma intro e dois temas, mostra bem a proposta do Difamator. Trata-se de um black metal ultraprimitivo, repetitivo, tosco, direto e barulhento, em que partes rápidas cedem lugar a longas passagens cadenciadas e cheias de climas. O som é cru, sem dúvida, mas os riffs não são banais ou primários. Ao contrário, embora simples, são extremamente catching, principalmente nas passagens arrastadas, revelando similaridade com o rei das melodias sinistras em três acordes (até podia, mas não estou falando do Black Sabbath), o suíço Samael. Além do clássico Samael, Varathron, Sarcófago (nas partes rápidas) e Hellhammer são nomes que surgem naturalmente durante a audição do trabalho. Mas nada de cópia. São apenas referências. Sem embargo, embora as músicas sejam muito boas, a verdade é que a precariedade da gravação prejudicou-as. O problema foi parcialmente resolvido na produção da nova demo, registrada em 1993. Mais bem gravada, Abdicate the Holy Canonization supera o debut. Nela, a banda também pôde contar, finalmente, com um baixista, Uncanny. Além da regravação de ambos os temas constantes da primeira tape, outro par de músicas foi incluído, com destaque absoluto para The Most Beautiful of the Angels, composição de mais de seis minutos em que a faceta black/doom do Difamator atinge sua forma mais bem acabada. Um pequeno clássico perdido do metal negro de guerra nacional.
A compilação Malefic Anticlerical and Antichristianity – que, na verdade, consiste no relançamento, agora em cd profissional, da coletânea editada pela Erinnys Productions em 2002 no formato cdr - apresenta, além das duas demos do Difamator (a segunda, remasterizada), uma versão de ensaio para The Black Side e outras duas faixas ao vivo, registradas no cult festival Worship the Black Goat II, realizado em Cerquilho/SP, em dezembro de 1993. A qualidade sonora dessas faixas, como era de se esperar, é sofrível. Mas vale como documento histórico.
Infelizmente, o Difamator encerrou suas atividades infernais logo após o festival, legando à imaginação o que poderia ter sucedido caso tivesse durado mais tempo. De todo modo, graças à iniciativa do novo selo Voz da Morte, sua demografia é agora imortalizada em cd profissional. Fica a esperança de que outras bandas essenciais daquela época verdadeiramente underground do black metal brasileiro também possam ser resgatadas, merecidamente, do oblívio. Qualidade e comprometimento com o metal negro nunca lhes faltaram.


Primeira logo do Difamator (massa!)


As entidades malévolas responsáveis pela banda

PS: Quem se interessar, pode adquirir a coletânea diretamente com o selo Voz da Morte, pelo e-mail: alexkcarlos@gmail.com

03/12/2014 - 10:24
Paullus Moura

DIFAMATOR é dever... e como bem colocado na resenha, escutar este material é entender além da construção sonora e suas influencias (além das citadas, há muito também de BEHERIT e BLACK CRUCIFIXION), o peso histórico que este material tem por detrás e o que pode proporcionar excitações aos mais saudosistas e, aos mais jovens, a possibilidade de atestar a realidade do cenário do início dos anos 90....

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