Entrevista com Getúlio Silenzio, vocal/guitarra do Asaradel

Publicado em: 10/03/2014 - 21:32

Formado em 1991 na cidade de Barbacena/MG por Homo Mullarum Imaginum e por Baalberith, egressos da extinta banda de black/death metal Invoker, o Asaradel notabilizou-se por executar um black/doom original e relevante. Dolorosamente arrastado e maniacamente satânico, a banda explorava caminhos então pouco visados por outras formações de metal extremo. O suíço Samael, bem do começo da carreira, e o holandês Necro Schizma podem ser considerados parentes musicais dos mineiros à época.
Durante seus primeiros anos de atividade, o Asaradel gravou três demos, que logo se tornaram clássicas no underground metálico mais sombrio: ...of Satanas (1991), Avernus (1992) e Perpetuating the Law (1993). Posteriormente, a banda alterou sua identidade musical, abandonou o black/doom e mergulhou fundo no duvidoso gothic metal, deixando mais alguns registros, inclusive um ep, antes de encerrar atividades no final da década de noventa.


...of Satanas (1991) -
uma das mais lendárias demos do black metal brasileiro


Recentemente, ainda na onda da boa receptividade advinda do relançamento das suas primeiras demos, em cd, pela gravadora paulista Hammer of Damnation, a banda anunciou sua volta à ativa. O novo trabalho, que será o debut do Asaradel passados mais de vinte anos da sua fundação, também será lançado pelo mencionado selo paulista e já se encontra em adiantado processo de gravação.
Antecipando esse lançamento iminente, o site Caçador da Noite entrou em contato com Getúlio Silenzio, aka Homo Mullarum Imaginum, o mastermind do Asaradel, para saber detalhes sobre o disco e também sobre o passado da banda.
Confiram!


1. Antes do Asaradel você tocou no Invoker, banda extrema de black/death formada em 1988 e da qual, hoje, é bem difícil conseguir as demos, mesmo na internet. Sua experiência no Invoker foi importante para fundar o Asaradel? O que você pensa atualmente do som do velho Invoker?

Getúlio Silenzio – “O Invoker foi minha primeira banda. Tocava baixo e fazia os vocais. Era eu, o Baalberith na guitarra e o Death Hammer na batera. Hoje é difícil achar o material porque, ao longo dos anos, os tapes foram se estragando. Mas ainda é possível conseguir alguma coisa. Claro que essa experiência no Invoker ajudou, depois, no Asaradel, apesar de eu ter-me aventurado a tocar guitarra. A experiência como banda foi fundamental para novos rumos sonoros. Ainda gosto muito dos sons do Invoker, principalmente a demo The Dark Acts. Penso que a música do Invoker soa asquerosa como eram as de algumas bandas daquele tempo, como a do americano Massacre.”


Silenzio e Baalberith (1991) - primeira formação do Asaradel


2. No começo dos noventa, o death metal era o estilo prevalente no underground metálico. O que o levou a formar, em 1991, uma banda tão diferente, de black/doom satânico, como o Asaradel? Quais eram suas referências musicais naquela época?

Getúlio Silenzio – “É verdade. A ‘tendência’ da época era um som o mais rápido e porrada possível. Aliás, ainda é assim. Porém, sempre há alternativas no underground. Sempre fui mais atraído por uma música mais arrastada. Naquele tempo surgiam nomes como o Necro Schizma, que me inspirou muito nesse sentido, e o Paradise Lost, que também foi grande influência. O Asaradel surgiu com um som lento e temática satânica. Foi algo natural. Fazíamos porque nos agradava. Nunca pensamos em atingir um público maior com essa proposta. Aliás, quanto mais ficávamos no esquecimento, mais nos sentíamos realizados dentro do nosso radicalismo da época.”


3. Você ficou satisfeito com a recepção, de público e mídia, dada às demos do Asaradel na cena brasileira daquele tempo? Como foi a recepção no exterior? Houve alguma proposta de gravadora para assinar com a banda?

Getúlio Silenzio – “Naquele tempo trocávamos muitas cartas com pessoas de vários lugares do mundo e a recepção sempre foi incrível. Na época recebemos proposta de um selo alemão, mas a formação foi quebrada na ocasião. Tempos depois fui morar em Manaus e esse mesmo selo não quis assinar com o Oráculo de Asaradel, banda que fizemos no Amazonas unindo as duas nomenclaturas, o Oráculo e o Asaradel.” NOTA DO EDITOR: Oráculo era o nome de antiga banda manauara de doom metal de cujas cinzas nasceu o Oráculo de Asaradel.


4. Depois das clássicas três primeiras demos, o Asaradel mudou drasticamente seu direcionamento e, por volta de 1994, passou a fazer um tipo soturno de gótico mesclado com metal. Como você vê, em retrospectiva, essa profunda metamorfose pela qual passou a banda?

Getúlio Silenzio – “Em 1994 o único membro original do Asaradel era eu. Com novos integrantes, também se incorporaram novas influências. Foi tudo natural, como sempre foi.”
NOTA DO EDITOR: meses antes de conceder esta entrevista, Getúlio Silenzio deixou um comentário muito interessante no meu antigo blogue, quando resenhei o cd coletânea lançado pela Hammer of Damnation. Por considerar aquele comentário relevante, reproduzo-o parcialmente:
Getúlio Silenzio - “Realmente, fui bastante infeliz quando incorporei o estilo gótico à banda. Não que esteja arrependido (de ter ido tocar gótico), mas sim de ter continuado com o nome Asaradel. Seria mais justo se o tivesse trocado. Porém, eu era bem mais jovem. Aconteceu a invasão black metal norueguesa e acabei mudando o direcionamento sonoro. Quis, sim, experimentar novos rumos. Sempre fui muito apreciador de gótico, mas errei (ao não mudar o nome da banda). Aceitei o desafio de retornar o Asaradel e criar um material raiz. Esse retorno é uma questão de honra, porque entendo que pensem que foi modismo (a mudança de direcionamento). Eu também pensaria dessa forma. Mas foi falta de experiência aquela transição musical toda. Mesmo porque fui o único integrante original que prosseguiu com a banda e, com a vinda de novos integrantes, acabou acontecendo tudo muito naturalmente. Espero ‘limpar’ o nome Asaradel e mergulhar profundamente no espírito daquela época.”


5. O que causou o fim do grupo, após o lançamento do ep Paradise Dry Branch, em 1998?

Getúlio Silenzio – “Problemas profissionais e imaturidade foram os principais fatores que causaram o fim da banda. Lembro que todos que estavam na banda de repente se viram em situações inevitáveis, pressão das famílias e crises pessoais das mais diversas.”



Paradise Dry Branch ep


6. O recente lançamento em cd, pelo selo Hammer of Damnation, de coletânea reunindo as primeiras demos do Asaradel foi saudado com entusiasmo pelos fãs da antiga cena black metal brasileira. Qual foi a importância desse relançamento para a retomada das atividades da banda? O restante do material noventista, aquele da fase gótica, também será relançado?

Getúlio Silenzio – “A importância foi total. Depois que a Hammer of Damnation lançou esse cd oficial com as três demos, a vontade, que já existia, de retomar com o Asaradel só aumentou. Também começaram a aparecer rascunhos de possíveis sons. Talvez fosse mesmo a hora. Só sei que tudo foi como um presente, uma grande dádiva. E, sim, todo o material já feito pelo Asaradel será relançado de forma oficial. Existe um clã idealizando e agindo nesse instante. Posso afirmar que serão lançamentos bastante interessantes.”


7. A encarnação atual do Asaradel conta com você, Getúlio Silenzio, na guitarra e no vocal, e Tristis, na bateria e no baixo (NOTA DO EDITOR: o disco que está para sair foi gravado sem baixo). Como se deu a escolha de Tristis? Você cogitou convidar o baterista original, Baalberith, para essa nova formação?

Getúlio Silenzio – “Chamei o Baalberith algumas vezes. Porém, não era para acontecer. Vivemos realidades de muita correria em nossas vidas pessoais e isso impossibilita nova empreitada. Quanto ao Tristis, foi como uma luva. Além de sermos conhecidos já há bastante tempo, nos identificamos com a proposta dessa volta. Estamos na ativa há quatro meses e, até agora, já temos um álbum inteiro pronto, tocamos no Nocturnal Age Metal Fest, em Juiz de Fora/MG, e estamos criando, focados em próximas empreitadas.”




8. Já estão disponíveis no site do Asaradel alguns samples das músicas novas. Ouvi e me pareceu um retorno ao clássico black/doom dos primórdios, talvez com um pequeno toque de gótico. A quantas anda o processo de gravação do disco? Já há uma data para seu lançamento? Como você definiria o estilo atual do Asaradel e o que representa para você finalmente lançar o debut depois de todos esses anos?

Getúlio Silenzio – “Os novos sons são doom, resumidamente doom metal, e são os sons do álbum Kanashibari. A previsão de lançamento pela Hammer of Damnation é para este ano ainda (2014). Esse trabalho virá com doze faixas e uma arte gráfica de tirar o fôlego feita pelo Hioderman. Estou completamente satisfeito com o andamento da coisa e muito honrado em participar desse material. Material que o Asaradel sempre mereceu. Esse trabalho representa para mim um desafio superado. Algo que me espanta até, pois a velocidade de tudo é surreal. Estamos voltando para o estúdio ainda este mês e temos até agora quatro sons já gravados: The Bleak House, Limbo, The Execution of Mephisto e Black Kosmus.”


9. Você compôs todas as músicas? Há alguma coisa nesse novo disco que tenha sido reaproveitada do repertório antigo ou, quem sabe, de material não utilizado do velho Asaradel?

Getúlio Silenzio – “Eu fiz a parte musical, criei os sons, fiz quatro letras. O Tristis fez sete letras e colaborou com ideias sonoras. Todo esse material da volta é da volta, não recuperei nenhum riff ou letra do Asaradel mais antigo. Queremos que ele seja um material honesto, vindo do profundo Eu criador – Nós criadores.”




10. Quais são os planos futuros da banda? O Asaradel voltou para ficar ou o objetivo, em princípio, é apenas gravar e lançar esse disco?

Getúlio Silenzio – “Enquanto estivermos inspirados, seguiremos. Só funciona assim. Se forçarmos a barra, seremos nossa própria queda. Então deixamos o tempo dizer. Queremos gravar mais. Quero continuar compondo. Isso me deixa em harmonia. Queremos fazer alguns shows também e queremos registrar nossas criações, sempre.”


11. Você me revelou que está rodando um filme documentário sobre a velha cena de metal extremo de Barbacena. Como está indo esse projeto? Você já tem alguma hipótese para explicar como uma cidade pequena e interiorana, do tipo de Barbacena, pode ter gerado bandas tão extremas e vanguardistas como o Invoker, o Behemoth e o próprio Asaradel?

Getúlio Silenzio – “A ideia do documentário partiu do Tristis. Chegamos a começá-lo, mas acabou emperrado, nem sei bem o porquê. Talvez esteja sendo difícil reencontrar algumas pessoas. Mas quem sabe daqui um tempo não sai? Barbacena sempre foi celeiro de bandas incríveis e antológicas. Alguns falam que é o clima, mas eu acredito que são as pessoas envolvidas que tornam essas bandas tão significativas. E fico bastante honrado por você falar do Asaradel.”


12. O que você anda escutando atualmente? Você ainda é ligado à cena de metal extremo? Acompanha o que tem sido lançado por aí?

Getúlio Silenzio – “Escuto muita coisa. Geralmente sons voltados para um lado mais sombrio, independente se é gótico, metal, rock, clássico, etc. Sempre escuto Devil Doll. Acho inspirador demais. Escuto também Lycia, Poeticus Severus, Mystifier, Luvart, Tristis Terminus, Bathory, Velho, Mortiferik, Última Dança, etc. Faço o possível para acompanhar o que vem acontecendo. Não tanto como gostaria, mas ando, sim, acompanhando.”


13. Getúlio, sei que você tem outros interesses dentro das artes. Ao que pude apurar, você mantém (ou mantinha) um site dedicado às artes sombrias em geral, chamado “Eflúvios Sepulcrais”. Fale-nos, por favor, sobre esse e, eventualmente, sobre seus outros projetos artísticos dentro e fora da música.

Getúlio Silenzio – “Não, o Eflúvios Sepulcrais é do Rio de Janeiro. Obra do grande amigo Marvyn. Não faço parte do zine. Apenas o aprecio com imenso prazer. Acho um fanzine bem expressivo. Fora da música gosto de fotografia, mas, devido ao meu emprego, não disponho de tempo necessário para, além da música, me dedicar a outros projetos ligados com arte. Porém, penso em daqui um tempo escrever algo como um drama.”


Asaradelofficial@gmail.com
https://www.facebook.com./pages/Asaradel/617743721600623?fref=ts
https://soundcloud.com/asaradel-1

12/03/2014 - 07:57
Morphis

Magnífica entrevista! Desejo força total aos caminhos da Asaradel e seus integrantes! Cordialmente, Anderson Morphis (Mortiferik)

13/03/2014 - 22:48
Slanderer

Entrevista foda! Digna demais. Hailz Asaradel!!!

14/03/2014 - 10:25
Caverna

Gostei muito da entrevista. Desde o álbum Forest of Equilibrium do Cathedral que sou fanático por doom. E fico feliz de saber que há bandas (poucas) do Brasil relevantes nesse estilo como a Asaradel: mais uma a ser reverenciada assim como Cianide, Bethlehem, Burzum, Cathedral, Paradise Lost, My Dying Bride, Burning Witch, Goatsnake, Electric Wizard, Warhorse, Pentagram, Saint Vitus, Trouble, Winter, Samael, Candlemass, Reverend Bizarre, Minotauri, Count Raven, diSEMBOWELMENT, Cirith Ungol, Crowbar, Dawn of Winter, Esoteric, Asphyx, Obituary, Rippikoulu, Sabbath...

19/03/2014 - 13:30

Brilhante entrevista. Desejo que Asaradel possa trilhar seus caminhos com sabedoria, sobretudo, respeito em vista de essência. Que os grandes - Getulio e Eduardo - permaneçam focados no que há de mais sublime no mundo da música. Atenciosamente. Rosely Dysangelium

25/05/2014 - 23:59
Hioderman ZArtan

O retorno da lenda, muito orgulhoso em poder contribuir!!!

02/09/2014 - 12:33
Zamilak-(Nocturne Sortilege)

Ave!!!È uma honra saber do retorne da Asaradel, pois eu acompanhava os mesmo nos antigos e xerocados zines. Os hinos das primordiais dt's ..." Of atanas" e "Perpetuating The Law" são baluartes significativos para o nosso império subterrâneo!!!Ave Occult Evil!!!

02/11/2014 - 18:38
João Messias Jr.

Bela entrevista!

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