Hammer of Damnation - lançamentos

Publicado em: 03/12/2013 - 12:22

Publicado originalmente no blogue themetalnightstalker.blogspot.com.br em 30.08.2013.

Uma coisa fundamental que descobri depois de muitos anos comprando discos foi que existem atalhos para o colecionador encontrar bandas legais. Mais especificamente, atalhos que podem encurtar o caminho na busca por um som de qualidade, de modo a evitar que o aficionado por música venha a perder tempo e dinheiro em demasia com porcarias rematadas ou bandas simplesmente descartáveis.
Um desses atalhos – um dos mais promissores – é conseguir identificar selos que sejam confiáveis. Selos que não lancem discos em escala industrial, visando a faturar pela quantidade e não pela qualidade de suas bandas. Selos que mantenham um padrão estético de qualidade. Não raro um padrão estético comprometido com algum estilo específico do metal. Em suma, é a velha história: selos que não sejam puramente comerciais. A verdade é que quando a gravadora é de respeito, seus lançamentos tendem a manter um nível mínimo de excelência. Enfim, você até poderá vir a não gostar, evidentemente, de determinado disco, de determinada banda, de um selo desses, mas dificilmente dirá que se trata de música de baixa qualidade.
A gravadora e distribuidora Hammer of Damnation, em minha opinião, inclui-se nesse seleto grupo de selos brasileiros respeitáveis.
Fundada em meados dos anos noventa pelo guitarrista e vocalista da banda de black metal paulista Evil, o Luiz Carlos de Oliveira (aka Warlord), a Hammer of Damnation sempre se destacou por dedicar-se ao patrocínio de grupos obscuros e radicais, inclusive em matéria lírica, pinçados, majoritariamente, do underground extremo nacional. Embora o black metal seja o foco principal do selo, a gravadora também cobre outras vertentes do metal, como o death metal old school e até o black thrash metal oitentista. Seu catálogo on-line oferece muitos títulos interessantes (vários deles a preços convidativos) e está repleto de bandas menos conhecidas, embora relevantes, do cenário black metal europeu, marcadamente as que colhem influências do folk e do viking metal.
Vale ressaltar que a Hammer of Damnation acabou de celebrar um acordo com a polêmica gravadora alemã Darker than Black, por meio do qual passará a atuar como sua filial oficial no Brasil.
A seguir vou destacar alguns bons lançamentos recentes do selo, assim como alguns mais antigos que, acho, merecem a atenção dos aficionados por metal extremo. Todas as bandas aqui mencionadas são brasileiras.


Antichrist Hooligans - We Will Piss on your Grave

Quem aí se lembra do velho Necrobutcher? Seu ex-vocalista, o Cristiano “Kranium” dos Passos, depois de anos sumido, volta a atacar (ao lado de outras figuras carimbadas do underground extremo de Santa Catarina), agora como batera desse ótimo Antichrist Hooligans.
Diferentemente do Necrobutcher, o som do A. H. nada tem a ver com death ou noisecore. O que temos aqui, em seu disco de estreia, é um black thrash metal fiel ao som germânico dos anos oitenta – “nuklear metal punk nekro thrash metal”, segundo definição da banda –, que soa como um rebento bastardo de Destruction e Kreator dos primeiros lps com uma queda pelo punk.
Ouça-se, por exemplo, os agudos do vocalista (que é puro Schmier) ou os riffs despejados pelas guitarras, uma mistura de Endless Pain com aqueles fraseados angulosos do Infernal Overkill. A bateria também segue a linha teutônica old school, revelando uma sonoridade mais seca e menos thrash que aproxima o som da banda do speed metal, assim como também acontecia nos primeiros plays dos grupos alemães que lhe servem de modelo.
Entre as doze faixas que compõem o disco, destaco a ótima Black Masses in Paradise, dotada de riffs empolgantes e uma parte cadenciada, ali pelo meio da música, capaz de arrancar a cabeça do ouvinte. Sem dúvida a melhor banda de retrothrash do Brasil.


Ritualmurder - Ritual of Heavenly Murder

Trilhando o caminho do mais tétrico black metal vem esse lúgubre Ritualmurder. Em seu disco de estreia, a banda apresenta um som realmente sombrio, dramático e verdadeiramente assustador, em que se destacam os vocais soturnos, em algo reminiscente do Attila Csihar no seu primeiro trabalho com o Mayhem, e a excelente rifferama cheia de trêmolos, na linha do black norueguês de raiz.
A banda de Euronymous, no De Mysteriies Dom Sathanas, é a principal referência, aos meus ouvidos, do Ritualmurder, inclusive na produção adotada no disco. Note-se, por exemplo, a timbragem aguda e cortante da seção de cordas. Citações a Sarcófago do I.N.R.I. também surgem aqui e ali, notadamente em certos riffs de guitarra. De seu turno, a bateria acelerada, dominada por blast beats, não dá descanso ao ouvinte, com exceção da longa introdução semideclamada e da faixa Funeral, esta última totalmente arrastada ao estilo do antigo Samael.
A melhor música, a meu ver, é a que fecha o disco, intitulada Ritualmurder. Trata-se de um arregaço dirigido por trêmolos high pitched palhetados à velocidade da luz, na melhor tradição norueguesa. O clima tenebroso que envolve essa faixa em particular, feito à base de backing vocals fantasmagóricos, é verdadeiramente de arrepiar. Um disco especialmente recomendado a quem já perdeu as esperanças na redenção da humanidade. NOTA: Como não consegui um link com a música Ritualmurder, vai aí um para a faixa Nightmare.


Luvart - Necromantical Invocation

Ainda dentro do black metal, mas com uma abordagem bem diferente, é o Luvart. A banda não é nova. Formada em Juiz de Fora/MG na primeira metade da década de noventa, somente agora, depois de longo período de inatividade, pôde gravar seu primeiro full lenght. A espera, contudo, valeu a pena. Seu debut (comprometido até o osso - digo, a alma - com o ideário satânico-ocultista) é composto por dez faixas de músicas ritualísticas, mamutescamente pesadas e cadenciadas, nas quais as escovadas de guitarra são exploradas até o limite da exaustão.
A analogia mais óbvia da música do Luvart, ainda que não seja exata (os caras são, de fato, bem originais), é com o Samael do inigualável Worship Him, assim como, num grau menor, com o Celtic Frost da obra-prima To Mega Therion. Sem embargo, doses de death metal do início dos noventa – vide, por exemplo, os vocais guturais utilizados por Luggal Merodach – também se incorporam à identidade musical da banda, dando um gosto todo especial ao som. A esse propósito, ouça-se a marcante Return of the Legion, no curso da qual surge uma fodida passagem death/doom na linha do que fazia o ícone do death metal alemão Morgoth em seus áureos tempos.
A produção deixou o disco com uma sonoridade mais seca e moderna (felizmente, não excessivamente moderna), sendo possível ouvir-se com clareza os instrumentos, inclusive os bumbos, que soam agudos e bem na cara. Música feita por gente que conhece do riscado: original sem ser excessivamente avant garde e tradicional sem ser demasiadamente retrógrada. NOTA: Mesma história do Ritualmurder (como os discos foram recentemente lançados, ainda não há links na net para todas as músicas); forneço o que está disponível para The Ancient Ritual.


Evil - Pure Black Evil

Uma das melhores e mais antigas bandas de black metal em atividade no Brasil, o paulista Evil conta com extensa lista de demos e de lançamentos em ep. Nesta compilação estão reunidos diversos sete polegadas e splits, alguns anteriormente disponíveis apenas em vinil, gravados pela banda entre os anos de 1996 e 2008. A produção, como não poderia deixar de ser, varia muito entre as músicas. Uma coisa, contudo, mantém-se constante: é invariavelmente tosca – como, aliás, exige o estilo.
O black metal da banda evoluiu pouco ao longo dos anos, mantendo-se sempre bem radical, numa linha tênue que oscila entre a fase black metal raiz do Behemoth, da Polônia, os primeiros plays do Burzum e as clássicas bandas francesas das Légions Noires, notadamente Mütiilation e Vlad Tepes. O destaque vai para os marcantes vocais desesperados de Warlord e os competentes, hipnóticos e ultradistorcidos riffs de guitarra, que conseguem o feito de soarem melódicos sem caírem na pieguice, mais ou menos no espírito dos velhos discos da banda de Varg Vikernes. A bateria, em regra, é bem discreta, limitando-se a marcar, ainda que com eficiência, o tempo da música, sem peraltices ou blast beats excessivos.
Aquele clima “nostálgico”, típico do bom black metal europeu noventista, domina a maioria das faixas e torna a audição emocional e fortemente contemplativa. Salvo um momento ou outro, não é música feita para headbanging. Ao ouvinte atento, pequenas mudanças na execução das bases, que se repetem exaustivamente ao longo de cada música, revelam aquele biscoito fino que muitas vezes separa as bandas superiores das medianas. Um par de músicas mais “rockers”, ao estilo Bathory do primeiro lp, destoa um pouco da aura obscura do resto do material. Nada, porém, que deponha seriamente contra a qualidade desta compilação, que ainda conta com um cover da lenda black metal alemã Moonblood.
Um bom exemplo da “mal gravada”, eficiente e emotiva música do Evil pode ser encontrado em A Southern War from the Winter's March, faixa tirada do split de 1996 com o Aryan Blood, da Alemanha. Relevante compilação de uma das bandas mais representativas do metal negro underground feito no Brasil.


Hammergoat - Regeneration through Depopulation...

Projeto do pessoal do Evil, e bem diferente desse, o Hammergoat detona, em seu ep de estreia, um war black metal vil, niilista e fanaticamente antimelódico, ancorado em Blasphemy, Beherit e desgraceiras similares, mas sem soar como uma cópia barata.
Momentos de full speed contrastam, graças à irrupção de transições súbitas, com passagens marciais tributárias da banda de Caller of the Storms, Black Winds e cia. Uma centelha infernal, inflamada pelo Archgoat, da Finlândia, também fagulha na música do Hammergoat, na forma de cadências sinuosas que conferem uma atmosfera de asfixia hipnótica ao seu som. Ouça a faixa Misanthropy: The Future e diga se não é para sair chutando todo mundo com o coturno durante o show. Para fechar o play há um cover de Black Vomit, do Sarcófago, tocado com a fúria que a música exige.
Banda fortemente recomendada a quem curte o lado mais visceral do black metal.


Dethroned Christ - Roots of Ancient Evil

O Dethroned Christ, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, não é outro projeto dos integrantes do Evil, mas a banda que os caras tinham antes de formá-lo. Depois de mais de uma década dormitando, o grupo foi reanimado para a gravação de seu debut – um par de demos e um split era tudo o que havia sido registrado até então. Todo o material aqui apresentado é inédito. Não houve regravações de músicas antigas.
O que ouvimos neste play é uma mistura bem tradicional de death, black, thrash e até um pouquinho de heavy clássico, à qual não se nega a adição de doses razoáveis de melodia. Em certas faixas, as marcas de Bathory do primeiro disco, do onipresente Sarcófago do I.N.R.I., de Venom do Black Metal e de Destruction antigo são claras, mas nada muito exagerado. O black norueguês noventista também tem seu espaço. Um momento mais épico igualmente aflora, de leve, hora ou outra, ajudando a conferir uma cara bem diversificada à banda. Enfim, o Dethroned Christ, neste seu primeiro full lenght, executa um hibridismo musical assumidamente old school, agrupando influências variadas em seu repertório.
O destaque vai para a faixa de abertura do disco, convenientemente intitulada The Return, em que a catadupa de influências da banda se mostra costurada com sucesso.


Ravendark's Monarchal Canticle - Sob a Bandeira do Ódio e da Arrogância

Também na estrada que leva à mistura desbragada de influências vem esse Ravendark’s Monarchal Canticle. Black, thrash e death metal oitentistas são a base do som da banda, que vomita sobre os ouvintes seus hinos militaristas (bradados em português) de ódio contra a humanidade.
Entre muitas outras referências, a música do R.M.C. lembra o velho e inesquecível Holocausto – obviamente, sem a mesma qualidade – da época do Campo de Extermínio, principalmente no vocal. Confira a faixa Komando Brasileiro e comprove. Um chauvinismo nacionalista muito comum nas bandas de war metal (não confundir com war black metal) impregna grande parte das letras dos caras.
A produção, infelizmente, é pobre e deixou as músicas com menos peso do que seria adequado. Alguns riffs meio derivativos (e até ingênuos) igualmente atrapalham a completa apreciação da obra. A bem da verdade, o play tem mais defeitos do que virtudes, mas há algo no som da banda que decididamente atrai minha simpatia. Embora o disco tenha seu valor, ainda não foi dessa vez que o R.M.C. marcou seu gol.


Asaradel - compilação de demos

Em sentido diametralmente oposto ao Dethroned Christ e ao Ravendark’s Monarchal Canticle, os mineiros do Asaradel invocam das negruras abismais do Hades o black metal mais puro, ortodoxo e hermético que se possa conceber. Esta compilação apresenta a demografia completa da fase metal dos caras, composta de três registros: ...of Satanas, de 1991, Avernus, de 1992, e Perpetuating the Law, gravada no ano seguinte.
O som do Asaradel é de uma originalidade inquestionável. Dolorosamente cadenciado, a ponto de o doom mais arrastado parecer-lhe veloz, é carregado de acordes viajantes de guitarra que mais se assemelham a lamentos distorcidos reverberando infinitamente pelos intestinos tortuosos de uma caverna fria e úmida. Essa atmosfera singularmente obscura é em parte obtida com a utilização massiva de efeitos como o delay, tanto na guitarra, que abusa dos dedilhados macabros e dissonantes, como nos vocais, rasgados e encapetados. Música contemplativa feita para desencarnar do corpo. Ouça com cuidado a faixa título da demo de estreia e tente discordar. Já na demo de 92, consta um cover para a ótima Doom of the Necroslaughter, tema do clássico grupo holandês de black/doom Necroschizma (que só gravou demos em sua marcante e curta existência). Não por acaso, o Necroschizma é o parente musical mais próximo dos mineiros, embora cada um tenha sua própria e inconfundível identidade.
As duas primeiras demos do Asaradel são absolutamente sagradas, sendo que ...of Satanas, na minha opinião, é um dos melhores e mais importantes registros de black metal do underground brasileiro. Uma pena que o conjunto haja mudado o direcionamento musical de forma radical, depois de ter gravado o terceiro tape, aderindo à moda de então, o bisonho e constrangedor gothic pop metal. Fico pensando como teria sido um full lenght genuinamente black metal da banda.


A Hammer of Damnation conta, ainda, com outros lançamentos relevantes, como o split cd do Evil com o australiano Drowning the Light (banda de que eu não gosto) e a compilação, até agora disponibilizada exclusivamente em tape, do material antigo do Dethroned Christ.
Permito-me encerrar, aqui, com uma sugestão ao Luiz Carlos de Oliveira, proprietário do selo: seria legal se fossem editados vinis limitados especiais dos seus principais lançamentos, assim como têm feito gravadoras estrangeiras (e, agora, até nacionais) que contam em seu cast com bandas potencialmente cult.
Tenho absoluta certeza de que muitos colecionadores, no Brasil e lá fora, haveriam de se interessar pelo material.

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