Hideous Gnosis - estudos sobre black metal

Publicado em: 28/12/2013 - 21:08

"Life is a hideous thing, and from the background behind what we know of it peer daemoniacal hints of truth which make it sometimes a thousandfold more hideous." - H.P. Lovecraft


E o black metal chegou ao discurso acadêmico...ou quase.
Há uns meses atrás um amigo me deu o toque sobre um livro curioso: Hideous Gnosis. Fiquei interessado e resolvi importá-lo pela Amazon (http://www.amazon.com/Hideous-Gnosis-Black-Theory-Symposium/dp/1450572162). Não sabia bem o que estava comprando. Depois de lê-lo, posso dizer que o dinheiro gasto valeu a pena.
O livro consiste numa compilação de ensaios, a maioria seguindo um formato para-acadêmico, apresentados durante um simpósio sobre black metal realizado na cidade de Nova Iorque no final do ano de 2009. Trata-se de uma tentativa de abordar a temática black metal de um ponto de vista, dito num sentido bem largo, filosófico. O objetivo declarado do livro é contribuir para a construção de algo batizado, pelo seu editor, Nicola Masciandaro, de “black metal theory”.
Determinar que diabos é isso é complicado. Mesmo depois de ler todo o livro não estou bem certo. De início achei que fosse uma tentativa de entender o black metal segundo os cânones estabelecidos da sociologia, ciência política, ciência da religião, teoria musical, antropologia, análise do discurso, etc. Ou seja, uma ampla reflexão teórica sobre o estilo. Mas, aparentemente, não é bem isso. Ou não é só isso. Até onde pude entender, cogita-se que o próprio discurso racional possa ser “enegrecido” e transformado pela força niilista e destrutiva do black metal, de sorte que a dita “black metal theory”, em última análise, seja convertida numa espécie de “blackened theory” – em certo sentido, o existencialismo já não tentou isso antes? Alguns ensaios no livro parecem trilhar esse caminho. Principalmente os de cunho menos analítico e mais esotérico.
De todo modo, seja lá o que for a “black metal theory”, diria que, antes do que uma teoria articulada e unificada, apresentam-se sob essa rubrica diversas propostas de teorização – ou, ao menos, de tematização – de elementos comuns no black metal. Num certo sentido, levantar as questões parece interessar mais aos autores do que costurar soluções teóricas.
No livro encontram-se ensaios para todos os gostos. Assim, por exemplo, há um que especula sobre os possíveis significados do emprego da imagem do lobo e da referência à licantropia nas letras das músicas. Outro que versa sobre as potenciais vinculações políticas do estilo com o extremismo político de direita. Outro que desvenda as imagens de natureza expressadas nas letras, contrapondo-as a um suposto “escapismo” moderno de origem hippie. Há um que advoga a necessidade da construção de um tipo de black metal “humanista”, em ordem a superar o black metal “inorgânico” do passado. Outro, ainda, que tenta interpretar o significado da fascinação com os eventos naturais da “degradação” e da “putrefação” segundo uma perspectiva de desconstrução do ego e de libertação espiritual. Um que aborda a demonologia como ferramenta válida de estudo aplicada ao black metal. Outro que fala sobre esoterismo e outro, ainda, que estabelece uma comparação entre a ortodoxia do black metal noventista e a ideologia reacionária da Contrarreforma Católica.
Os ensaios diferem muito, tanto em questão de abordagem e estilo como em questão de referenciais teóricos e até mesmo em relação ao campo de estudo desde o qual se olha para o fenômeno. Alguns ensaios são muito bons e estimulantes. Outros, nem tanto. Só para fazer uma menção expressa, há dois, em especial, que me chamaram muito a atenção. São aqueles que tratam das possíveis implicações políticas do black metal. Neles, os autores estabelecem um diálogo crítico extremamente interessante, fundado em posições fortemente antagônicas, e que promete prosseguir em escritos futuros.
Como ponto negativo, mencionaria a relativa pouca importância dada à análise de estruturas musicais (senti falta de ensaios redigidos por estudioso de teoria musical ou, ao menos, informados por essa perspectiva) e a fixação quase absoluta dos autores com o black metal de cepa norueguesa, em detrimento de outras possibilidades de expressão dentro do campo do metal negro, como o war black metal e o death/black – subestilos que, no meu modo de ver, apresentam ontologias bem distintas do black nórdico.
Ainda assim, o livro apresenta virtudes suficientes para ter sua leitura recomendada a todos que, sejam ou não metalheads, se interessem por mergulhar em dimensões mais profundas da música. Em suma, trata-se de um estudo sério, feito por gente que se deu ao trabalho de pesquisar e de refletir sobre os temas. Aliás, mais importante do que o próprio livro é o que ele sinaliza: a crescente preocupação de vários estudiosos em tratar o mundo do heavy metal, e do black metal em particular, sem preconceitos estúpidos, babaquices, lugares comuns, paternalismos ou moralismos de quinta categoria. Em outras palavras, a preocupação em tratar o metal – uma das manifestações mais fecundas e relevantes da música nos últimos quarenta anos – com o respeito que ele merece.


Flyer do simpósio


O editor Nicola Masciandaro apresentando seu artigo no simpósio


PS. Os organizadores do simpósio mantêm um interessantíssimo blogue sobre assuntos relacionados ao black metal e à "black metal theory" (http://blackmetaltheory.blogspot.com). Além de notícias sobre livros, jornais e outros eventos, há muito material para estudo e consulta disponível.
PS 2. Segundo se pode ver no blogue, dois outros simpósios já foram realizados desde então. Os seus anais, contudo, ainda não foram publicados.

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