Molested "Blod-draum"

Publicado em: 27/03/2014 - 01:15

Que a Noruega entrou definitivamente no mapa do metal com o black noventista é fato incontestável. Porém, bem antes disso, muitos dos músicos que viriam a integrar a chamada second wave of black metal já militavam no velho death metal. O pessoal do Dark Throne, o Abbath Doom Occulta, do Immortal, o Varg Vikernes, do Burzum (esses dois últimos fizeram parte do interessante Old Funeral), todos estiveram envolvidos, previamente, com o metal da morte. Sei que não é muita novidade dizê-lo. Mas do que talvez nem todo mundo saiba é que outras figuras menos conhecidas, mas ainda assim importantes, do black norueguês também tiveram, anteriormente, seus conjuntos de death metal.
Inicialmente sob o nome Purgation, o Molested foi um desses conjuntos. Fundado na mítica cidade de Bergen pelo talentoso guitarrista e vocalista Oystein Garnes Brun, que depois viria a formar a bem-sucedida banda de black/viking Borknagar, o Molested durou de 1991 a 1997, período suficiente para gravar duas demos, um full lenght e um ep. Todo esse material foi relançado em 2009 pelo selo americano Ars Magna, numa essencial compilação em cd duplo.
O som do Molested é um death metal duríssimo, extraordinariamente criativo, muito bem executado, rápido pra diabo (o batera, em especial, é um caso sério), com vocais absurdamente guturais e dotado de riffs e transições de altíssima qualidade. Embora o som dos caras seja original, não foi criado a partir do nada. A inspiração básica da banda vinha não do outro lado da fronteira, da vizinha Suécia, mas de bem mais longe, da Costa Leste dos EUA. Penso aqui, especificamente, em Morbid Angel. Até um toque mais moderno, de brutal death metal, dá pra perceber, bem de leve, no debut e no ep, o que mostra como o Molested estava na vanguarda do movimento à época.
Outro ponto interessante a se enfatizar é que, embora o som seja indubitavelmente death, inclusive no tipo de gravação escolhida (grave e abafada), em determinados músicas surgem umas passagens black metal, no estilo Immortal, que, além de muito bacanas, têm a virtude de soarem totalmente orgânicas com o restante das composições.
Os melhores momentos da banda foram alcançados, indubitavelmente, no seu full lenght Blod-draum, gravado em 1995. Trata-se de um play excelente, repleto de boas músicas, que converte a tradicional tarefa do crítico de destacar faixas num exercício quase aleatório. Ainda assim, ressalto The Hate from Miasma Storms, com seu furioso e mortífero riff de abertura, a la Immortal do Pure Holocaust, e a ótima Following the Growls, faixa de rara qualidade, repleta de mudanças de andamento e de climas, transições e movimentos de guitarra, na qual se incorpora até um trecho folk de muito bom gosto. Não se pode deixar de incensar, ainda, a faixa titulo, que consiste, integralmente, num competente e atmosférico folk nórdico movido a intensos blast beats. Com efeito, deve-se reconhecer a extrema criatividade dos caras para compor. O resultado são faixas brutais, porém sofisticadas, nada óbvias e super-variadas, que, apesar das constantes mudanças, soam sempre redondinhas.
O ep Stormvold, de 1997, vai na mesma linha do debut, com a adição de um pouco mais de melodia em certas faixas. Esse incremento melódico, em minha opinião, não funcionou bem, como se pode ouvir em Pyre at the Tarn, música que se aproxima demais daquele negócio duvidoso que fazem as bandas mais “chorosas” de black metal. Ainda assim, é um bom registro.
As demos Stalk the Dead e Unborn Woods in Doom, gravadas, respectivamente, em 1991 e 1993, mostram um Molested ainda imaturo, principalmente na primeira demo, na qual a banda segue de perto os cânones do death metal mais convencional. Algumas pistas do futuro caráter criativo e heterodoxo da banda podem ser encontradas, entretanto, já em duas faixas dessa segunda demo: Unborn Woods in Doom e Forlorn as a Mist of Grief. Não por coincidência, regravadas no posterior full lenght, em versões muito superiores às originais.
Diga-se, por fim, que essa compilação dupla em cd conta, a par da antiga, com uma remasterização do debut, que conferiu ao som mais brilho e claridade. A meu sentir, a nova masterização ficou melhor do que a original. Em especial as partes de bateria cresceram muito, sendo esse o instrumento, individualmente considerado, que mais impressiona o ouvinte em Blod-draum, principalmente os bumbos (a soarem verdadeiramente explosivos!).
Trata-se, enfim, de compilação fundamental, de uma das bandas mais interessantes, fora do cenário black metal, já surgidas na Noruega e que contém, talvez, o melhor full lenght de death metal já gravado naquele famoso país nórdico.


A capa original do full lenght Blod-draum


A galera do Molested - visual mais black do que death metal

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