Nuclear War Now! Festival III - Berlim (ALE), 9 e 10 de novembro de 2012

Publicado em: 02/12/2013 - 18:34

Publicado originalmente no blogue themetalnightstalker.blogspot.com.br em 03.03.2013 (post inaugural do blogue).

Para iniciar a conversa vou postar minha resenha sobre um festival a que fui no fim do ano passado em Berlim, na Alemanha. Trata-se da festa anual da Nuclear War Now! Productions, selo especializado em relançamentos em vinil de bandas cult de death e black metal do fim dos oitenta e início dos noventa. A Nuclear War Now! também conta em seu cast com algumas da principais bandas de war black metal da atualidade. Em suma, um dos melhores selos de metal extremo que se pode encontrar (e olha que não estou sendo pago para dizer isso!)


O FESTIVAL
Já há tempos andava de olho no festival, que é promovido, como já disse, pela NWN!, em parceria com a alemã Iron Bonehead. Perdi as duas primeiras edições, realizadas em Berlim nos anos de 2009 e 2010 (em 2011 não rolou). Quando vi o cast para a terceira edição (2012), decidi que era hora. A fissura foi tanta que comprei o ingresso antes mesmo de ter dinheiro suficiente para a viagem. Dois dias, com dez horas cada, dedicados a algumas da melhores bandas de metal extremo não dá para perder!

Meu amigo, se você é fã de war black metal (aka bestial black metal, death/black metal, grind black metal), eis o festival a que deve ir. Em 2012 a banda de fechamento anunciada foi simplesmente o Blasphemy, do Canadá. Para os antigos adoradores do estilo, o Blasphemy dispensa apresentação. Para quem não é assim tão antenado com o underground metálico mais radical, vale registrar que o Blasphemy, juntamente com o Sarcófago – influência reconhecida no som dos canadenses –, estabeleceu, lá no fim dos oitenta/início dos noventa, os parâmetros do estilo, quando sequer existia o rótulo war black metal.

O estouro do black metal norueguês em meados dos noventa deixou o war black metal em segundo plano, confinado ao porão do underground. Mas parece que, nos últimos anos, com a superexploração e o conseqüente esgotamento do black metal nórdico, surgiu um vácuo que vem sendo ocupado por essa versão mais visceral do black metal. Noto que tem uma galera, tanto bandas como fãs, migrando de um estilo para o outro. Repetição de história velha. Basta lembrar-se de vinte anos atrás, quando muitas bandas de death metal se bandearam para o lado do black metal.

Nesse contexto, de esgotamento do black norueguês, é que surgiu o festival anual da Nuclear War Now Productions. Em meados dos noventa, contavam-se nos dedos de uma mão as bandas ativas de war black metal. Hoje, já são vários os nomes. Dos mais conhecidos, quase todos tocaram no festival.



Pôster do evento


O AMBIENTE
Para quem nunca foi a um festival europeu – era o meu caso –, a comparação com a estrutura média de shows underground no Brasil provoca um choque imediato. Nada de atraso, som ruim ou barraquinhas vendendo os mesmos CDs óbvios. O negócio lá é puta profissional.

Para começo de conversa a produção alugou um clube famoso localizado na antiga Berlim Oriental, o Fritzclub. O lugar, ao que deu para sacar, é uma antiga fábrica, que foi adaptada com sucesso para servir de boate e casa de shows. Fiquei num ótimo hotel a trezentos metros do clube. Hoje, com a internet, é possível planejar tudo! Na entrada da casa tem uma chapelaria e você já pode deixar lá os seus casacões (fazia uns oito graus na rua). Mais importante, pode deixar lá também as bugigangas que comprar no metal market do festival. Sim, porque ir num festival desses e não comprar nada é impossível. A quantidade e qualidade do material disponível é de ficar perplexo. Pilhas e mais pilhas de vinis, eps, pictures, demos, boxes especiais, zines, camisas e, claro, um dilúvio de CDs. Em uns quinze minutos eu já tinha gastado quinhentos euros! Os europeus são muito privilegiados nesse aspecto. Além dos próprios shows, têm acesso fácil a um monte de material raro, sem custo de frete nem o perigo de ter de pagar o extorsivo imposto de importação brasileiro de sessenta por cento. A única decepção foram os preços. Em lojas online certos itens estavam mais baratos do que os praticados no metal market do festival. Vale notar que o pessoal compra mesmo, não fica só olhando. O que rola de grana num evento desses não é brincadeira.



Na frente do Fritzclub


O festival foi sold out, mas a casa não ficou abarrotada. O pessoal lá se preocupa com conforto e segurança. Dentro era possível ouvir gente falando um monte de línguas: inglês, alemão, francês, japonês, italiano, russo, espanhol, romeno (foneticamente perece italiano), norueguês e sei lá mais o quê. Não ouvi ninguém mais falando português, embora tenha visto uma bandeira do Brasil ser agitada na fila do gargarejo, durante o show do Rotting Christ.

Outra coisa que me chamou a atenção e dá uma pista do radicalismo underground do festival: não havia uma única pessoa com camisa do Iron Maiden. Nada contra o Maiden, mas a banda é absolutamente mainstream, ao menos no cenário metal. Vi gente com camisas e patches de jaquetas de bandas como Necrovore, Deiphago, Autopsy, Black Witchery, Morbosidad, Venom, Beherit (aos montes), Blasphemy (também aos montes), Conqueror, Archgoat, Revenge, Necros Christos e de brazucas como Sarcófago, Mutilator, Vulcano, Holocausto, Mystifier e até do obscuro colombiano Reencarnación, Cult black thrash de fim dos oitenta. Pelo menos metade do pessoal tinha jaquetas cobertas com esses patches. Algumas deviam somar mais de cinqüenta nomes de bandas!

Durante todo o festival dava para encontrar integrantes das bandas andando em volta das barraquinhas, como o Caller of the Storms e o Black Winds, ambos do Blasphemy (anedota: minha esposa encontrou o baixista do japonês Anatomia na seção de roupas infantis num shopping popular vizinho ao festival e, mesmo não sendo fã de metal, tirou uma foto com ele: os caras são radicais na música, mas poucos fazem aquela pose cansativa de from hell). Embora boa parte do público fosse formada por uma galera visivelmente mais antiga – aí pelos trinta e tantos (como eu), quarenta e poucos anos – apareceu também uma garotada bem nova. Sinal de que o metal ainda é um estilo que tem algo a dizer para a juventude de hoje. Felizmente!




Calibrando para o show


O PRIMEIRO DIA DE SHOWS
Tendo chegado a Berlim no mesmo dia, fiquei com preguiça de ir ao warm up do festival, que foi realizado em outro lugar, no Blackland Club. Lá tocaram, na ordem, o Demonomancy, o Vanhelgd, o Bunkur e o Abigail. Lamentei apenas não ter visto o Demonomancy, da Itália, que toca um war black bem interessante, já tendo um par de demos e um ep lançados. O Abigail atual, embora ainda seja prestigiado no underground, não faz meu estilo. Excessivamente party rock. Curto mesmo é a fase bem antiga, quando tocavam black metal no estilo do Bathory do The Return.

A abertura do festival coube ao estranho Knelt Rote. Para um público de uma dúzia de gatos pingados – o grosso da galera preferiu ficar nas barraquinhas de vinis ou fumando numa área aberta contígua – a banda mandou ver seu set de meros vinte minutos. O som deles é bem embolado, um death metal com pitadas ambient/industriais super abafado e hermético. Achei mais ou menos.

Depois veio o Anatomia, banda de doom/death japonesa que eu curto muito, nascida das cinzas do antigo Transgressor. Recentemente eles adicionaram uma tecladista à formação e, em alguns momentos, me pareceu que as guitarras perderam demasiado espaço. Para tirar a prova só ouvindo o novo disco deles, o que ainda não fiz.



Anatomia


A primeira banda a tocar que pode ser considerada black/death metal (o mote do evento) foi o Pseudogod. Já com uma platéia bem maior, os russos, usando o típico corpse-paint do black metal, fizeram um show correto de pouco mais de meia hora, mostrando suas músicas influenciadas pelo antigo Beherit e pelo black norueguês de raiz. Destaque para o vocal grave, que faz um contraponto legal com o som mais black do grupo.


Pseudogod


Em seguida veio o Antediluvian, que foi a primeira banda a realmente me impressionar. O som dos canadenses é incrivelmente denso, uma espécie de Incantation com riffs mais técnicos e estranhos. Dada a massa sonora, fiquei assombrado com o fato de que conseguiram evitar que tudo virasse uma maçaroca só. Para os padrões do metal radical, deu para ouvir na boa.



Antediluvian


O ótimo Blasphemophagher, da Itália, veio na seqüência e quebrou tudo (até um baixo) com seu legítimo war black metal inspirado em Blasphemy e quejandos. Uniformizados com a roupa de guerra do estilo – olhos pintados de preto, spikes de cinqüenta centímetros, cintos de balas sobre cintos de balas, e máscaras de gás –, os caras detonaram um set de quebrar o pescoço. Vale ressaltar que o Blasphemophagher vem investindo numa vertente do war black que ressalta a precisão técnica na execução da música, em detrimento dos elementos mais noise também abundantes no gênero, na linha oposta, por exemplo, do que faz o assustador Deiphago, das Filipinas. Por vezes, o som do Blasphemophagher acaba soando próximo ao thrash metal. Muito bom! Mas há que se ter cuidado. Esse negócio de começar a trampar o som é perigoso. Vejamos o que acontece nos próximos discos dos caras.



Blasphemophagher


O Wrathprayer, do Chile, foi a única banda da América do Sul a participar do evento, o que não deixa de ser surpreendente, dado que nosso continente é um dos responsáveis por parir o war black metal. Confesso que não conhecia o som deles, mas já virei fã! Banda na velha e sacrossanta tradição do Sarcófago. Primeira coisa que fiz ao voltar para o Brasil foi importar o full lenght de estréia deles, intitulado The Sun of Moloch, lançado pela Nuclear War Now!.



Wrathprayer


O Morbosidad, atualmente sediado no México, ia tocar em seguida, mas um pequeno atraso (pequeno mesmo!) fez com que seu show fosse remanejado para o dia posterior.

O Dead Congregation foi a última banda a subir ao palco antes da atração principal. Em cinqüenta minutos os gregos despejaram sua música dura e fúnebre influenciada (como tantas outras) pelo Incantation, embora numa pegada mais doom. Ainda que curta o som deles, acho que outras bandas do cast mereciam tocar mais tarde e, conseqüentemente, dispor de mais tempo para se apresentar. Cito, por exemplo, o Blasphemophagher. Mas tudo bem. Aparentemente, e a julgar pelo tamanho do público, eles estão hoje com mais moral do que os italianos.



Dead Congregation


Para fechar o primeiro dia do festival tivemos a lenda Rotting Christ, desfilando em uma hora apenas sons dos três primeiros trabalhos: Passage to Arcturo, Thy Mighty Contract e Non Serviam. Chamar o Rotting Christ para fechar um evento underground desses foi arriscado. Desde que os gregos enveredaram pelo abjeto gothic metal, perderam toda a confiança do público de metal extremo. Ouvi dizer que, nos últimos discos, eles voltaram a tocar numa linha mais black metal. A julgar pelo que ouvi, só se for black metal farofa tipo Cradle of Filth. Reconheço que os caras são profissionais, tocam bem e fazem um show competente, mas a verdade é que perderam totalmente o feeling para tocar música extrema. Basta ver como assassinaram a infernal e hipnótica Feast of the Grand Whore, da mega-clássica demo Satanas Tedeum. Nota: muita gente foi embora ao fim do show do Dead Congregation, o que mostra que minha opinião não é isolada.



Rotting Christ - antes de afundar no metal farofa


O SEGUNDO DIA
Perdi o curtíssimo set da primeira banda, o bom Bestial Raids, death/black da Polônia. Preferi fuçar novamente o metal market.

Em seguida veio o inglês Adorior, tocando ainda para um pequeno público. O som dos caras é esmagador, um thrash metal afiadíssimo, ultra-mega-rápido, recheado de cadências altamente headbanging, e executado numa insana pegada war black metal. A mina no vocal realmente bota os pulmões para fora! Se você ainda não os conhece, trate de arranjar, ao menos, o último play deles: Author of Incest. De todo modo, mesmo que tenha sido um ótimo show, fiquei com a impressão de que em estúdio a banda soa ainda melhor.



Adorior


O tétrico Embrace of Thorns veio em seguida e foi muito bem recebido por uma platéia já bem maior. O death/black da banda grega é um dos mais originais do estilo e, no último play, eles chegaram a um nível de profissionalismo e precisão raros, talvez só comparável ao atingido pelo Blasphemophagher, embora o som das duas bandas seja muito diferente. O Embrace of Thorns injetou uns climas mais rebuscados e até um pouco de melodia na sua música, mas isso não o tornou menos sombrio ou comprometido com o underground mais duro. Trata-se de banda altamente recomendada! Mais um show competente.



Embrace of Thorns ao vivo na primeira edição do NWN! Festival


Para estrear o segmento de bandas com quarenta minutos disponíveis, entrou em cena a lenda Black Witchery, da Flórida. Sou suspeito para falar, pois o Black Witchery é, atualmente, uma das minhas bandas preferidas. Upheaval of Satanic Might, o segundo full lenght deles, ocupa o topo da minha lista como melhor disco de war black metal lançado depois dos clássicos seminais do Blasphemy, do Bestial Warlust e do Sarcófago. A presença de palco do trio americano é impressionante. Vestidos dos pés à cabeça com longos mantos negros, os caras mais parecem entidades infernais invocando seu som imundo, hiper-acelerado e pesadíssimo diretamente do abismo do desespero, de forma inclemente, praticamente emendando uma música na outra. A fúria malévola com que o Impurath (vocalista e baixista da banda) vocifera as letras merece registro especial. Esse foi o único show a que me atrevi a entrar na roda de pogo, particularmente agressiva durante aquela apresentação. Como resultado do empurra-empurra, perdi quase todos os bottons que tinha prendido à camisa. Show absolutamente insano, que teve, como em quase todas as bandas, ótima qualidade sonora. Que me desculpem os organizadores, mas o único grupo que poderia tocar depois do Black Witchery seria o próprio Blasphemy (ou o Revenge). Qualquer outro equivaleria a diminuir a intensidade do negócio!



Black Witchery - Ross Bay Cult eternal!


Coube ao Proclamation dar continuidade ao festival. Tarefa ingrata. Mesmo assim, o eficiente clone espanhol do Blashpemy cumpriu a contento sua missão e conseguiu manter a galera ligada com o seu Ross Bay Cult.



Proclamation


Em seguida entraram em cena os australianos do Ares Kingdom. Francamente, o death/thrash mediano da banda é muito light e excessivamente genérico para um festival desse tipo. Resultado: o público caiu pela metade. Muita gente aproveitou a ocasião para ir fumar lá fora ou caçar coisa no metal market. Já eu aproveitei para beber e recobrar as energias, ainda exauridas pelo matador show do Black Witchery.

O Morbosidad, que havia sido remanejado do dia anterior, atraiu novamente a atenção do público para o palco. O som dos chicanos é muito legal e totalmente sintonizado com o espírito de festival. O seu primeiro full lenght é um marco do estilo. A apresentação, contudo, deixou um pouco a desejar. A banda não parecia muito coesa, talvez pelas excessivas mudanças de formação. A impressão é que, hoje, o Morbosidad é menos uma banda e mais um projeto do Tomas Stench (o vocalista) acompanhado por músicos de ocasião.


Morbosidad


Em seguida entrou em cena o lendário Sabbat, do Japão. Quem já viu um show do Sabbat sabe o que esperar: uma heavy/speed metal parodiando Venom, com direito a gritos agudos do vocalista e aos integrantes da banda vestidos com as indefectíveis tangas de couro. Muita gente acha a banda ridícula e se você não entrar no espírito fica difícil curtir os caras. Lá no início da carreira, nos míticos anos oitenta, os japas se levavam mais a sério, mas hoje a auto-ironia impera. Som simples e divertido. Foi legal para quebrar a sisudez do festival.



Os japas malucos do Sabbat


Na seqüência veio o apocalíptico Revenge. Meu amigo, é impressionante a massa sonora que o power trio canadense consegue produzir ao vivo. Supera o já hecatômbico som registrado em estúdio. Um negócio realmente atordoante. Sem dúvida foi o show mais brutal que já vi em minha vida. Ao contrário do Black Witchery – hoje talvez o outro grande nome do war black metal – o Revenge aposta mais na agressão do que na morbidez do peso, dando preferência a riffs mais esporrentos e a um timbre de guitarra mais agudo e cortante. Sem dúvida alguma são os legítimos sucessores do finado Conqueror. Possivelmente o melhor show do festival.



Revenge


Para fechar a noite, aquele que dispensa apresentações: o Blasphemy. Confesso que fiquei emocionado ao ver o Caller of the Storms e o Black Winds em cima do palco, fitando a platéia, na espera do fim da introdução do Fallen Angel of Doom, para iniciar o show. Lembrei-me dos tempos em que ouvi o disco a primeira vez, em 1991 ou 92, época em que o death metal imperava e o black metal existia apenas no underground mais obscuro. O radicalismo da música, totalmente influenciado por Sarcófago, converteu-me em fã imediato da banda. Sem conversa nem perda de tempo, e com ótima qualidade de som, executaram fielmente todos os seus clássicos, durante a mágica uma hora do show, inclusive Gods of War, o hino de pouco mais de vinte segundos que, na minha opinião, condensa tudo o que o war black metal deve ser. Tinha certo temor de que, dado o longo tempo sem gravar nada inédito – vinte anos –, o Blasphemy tivesse virado um cover de si mesmo. Tipo essas bandas antigas que fazem turnês de gratest hits por anos a fio. Qual nada! Os caras estão super afiados, em plena forma. Será um crime se não gravarem material novo. Lenha os caras já provaram que ainda têm para queimar.



Blasphemy - os deuses do war black metal


O SALDO
Ir a um festival europeu é uma experiência inesquecível. Mais do que inesquecível, é obrigatório. Quase como ir a Meca para um muçulmano. Além de ter-se a chance de assistir a bandas que raramente ou nunca vêm ao Brasil, é uma ótima oportunidade para garimpar-se raridades em demo ou vinil e até trocar idéias com bangers de outros países.

Nunca é demais lembrar, também, que a Europa oferece muito mais do que simplesmente ir aos shows, o que garante a contrapartida para quem tem esposa e filhos. Enfim, vale demais a pena e se você se agendar com cuidado dá para ir sem ter que vender o carro (por exemplo: voando com milhas). Com certeza é algo que, ao se realizar uma vez, tende a tornar-se um hábito por toda a vida.

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