Resenha do festival Objeto de la Obscuridad

Publicado em: 05/12/2013 - 22:25

Publicado originalmente no blogue themetalnightstalker.blogspot.com.br em 18.11.2013.

Disse que não ia, mas fui.
Embora já tivesse comprado a passagem para o dia do "Brazilian Ritual", resolvi, de última hora, mudar meus planos e antecipar a viagem para São Paulo, de modo a poder assistir aos shows do "Objeto de la Obscuridad". Afinal, seria a primeira vez que as ótimas bandas chilenas Force of Darkness, Hades Archer e Wrathprayer tocariam no Brasil.
Assim como eu, parte do pessoal que foi para ver Blasphemy, Revenge e companhia limitada, cuja apresentação ocorreria no dia seguinte em São Bernardo, também compareceu à Fofinho, na sexta-feira, para presenciar a performance dos chilenos. A casa não ficou lotada, mas deu um público razoável. No meio dele era possível ouvir muitos falando em espanhol. Gente que vinha da Bolívia, Peru, do México e, claro, do próprio Chile somava-se a brasileiros de todos os cantos do país para prestigiar o evento. Os caras do Blasphemy e do Revenge também deram o ar de sua graça. Até o maníaco do Impurath, baixista e vocalista do americano Black Witchery, banda que sequer tinha apresentação agendada no Brasil, apareceu por lá.
O metal market do evento, em especial, estava muito legal, com stands de pequenos selos e distribuidores de várias partes da América do Sul. Além de ter comprado muita coisa interessante, fiquei sabendo, por intermédio do cara da Veins Full of Wrath Productions, que certas demos de culto chilenas do fim dos oitenta e início dos noventa – demos que, até agora, não haviam sido alvo de relançamento – acabaram de ser reeditadas no Chile, caso do maravilhoso Darkness (infelizmente, ninguém as levou para vender no evento), ou estão em vias de ser, caso do lendário Bloody Cross. Quase bangueei de alegria. Trata-se de material absolutamente obrigatório para os aficionados pelo metal sudamericano da velha escola!
Bom, vamos aos shows.
Infelizmente não assisti à primeira banda brasileira a tocar, o Fecifectum, de São Paulo, pois estava concentrado em vasculhar o metal market. Já a segunda, o também paulistano Tenebrous Infernal Abyss, muito embora esteja na ativa desde 2004, era novidade para mim.


Tenebrous Infernal Abyss em ação no festival

A banda detona um ótimo black/death metal em que os elementos black se sobressaem sobre os death. O power trio mandou ver no palco e conquistou a plateia, inclusive a mim, com um show competente. Destaques para o vocal gutural e para as marcantes linhas de baixo, que dão o tom mais death no som da banda.
Fiquei particularmente impressionado com essa sonoridade pesada e gordurosa do baixo, a fugir daquela timbragem mais aguda e muito em cima das guitarras que é praticamente lugar comum no black metal de linhagem noventista. Muito boa banda, que já conta, em sua ainda curta discografia, com duas demos e dois splits.


Hades Archer: chilean satanic black/death kult!

Em seguida entrou em cena a primeira banda chilena, o Hades Archer. O som dos caras é bem original, transitando entre o thrash extremo, o death e, principalmente, o black metal. Na verdade, é um pouco artificial dizer que eles “transitam” por esses estilos, já que o som da banda é rigorosamente old school e oitentista, ou seja, bebe numa tradição em que essas distinções ou não fazem muito sentido ou são pouco esclarecedoras.
Com efeito, não se cuida, aqui, daquele estridente black noventista na linha Dark Throne, mas de um black da velha guarda, no qual se agrega algo do velho Samael e daquelas antigas bandas clássicas da Grécia, nas partes lentas, Bathory dos primeiros discos e, mais do que tudo, Mortuary Drape, grupo do qual, inclusive, eles registraram uma boa cover (Primordial) no seu último full lenght.
Várias músicas dos seus dois plays, For the Diabolical Ages (2011) e o excelente The Curse over Mankind (2012), constaram do set, com destaque para a lenta e climática Into the Black Mass, faixa do primeiro lp.
Menção especial merece o vocalista, que tem ótima imposição vocal para o tipo de som que o Hades Archer leva. Um show muito bom que foi um pouco prejudicado, entretanto, pelo fato de a banda ter-se apresentado com apenas dois integrantes, sem baixista. Ainda assim, o duo conseguiu mostrar o poderio inquestionável de sua música.


Wrathprayer detonando o melhor show da noite

O Warthprayer, de Roncagua, foi a banda seguinte e, para mim, fez o melhor show da noite. Essa foi a segunda vez que tive a oportunidade de vê-lo, já que tinha assistido à sua apresentação no festival da NWN!, em Berlim, no fim do ano passado. Naquela ocasião ainda não conhecia o som da banda. Dessa vez foi diferente e pude avaliar melhor o show.
O patamar de profissionalismo que, em pouco tempo, o Wrathprayer conseguiu atingir é de espantar. Fica mesmo difícil encontrar pontos negativos na performance dos caras. Agora como quarteto, o paredão sonoro que a banda constrói em estúdio fica ainda mais esmagador. Trata-se de um som soturno, pesado ao extremo, sufocante e incrivelmente mórbido.
Como já havia notado quando fiz a resenha do seu disco de estreia e, até agora, seu único lp, The Sun of Moloch (2012), o americano Demoncy, da época do clássico Joined in Darkness, parece ser a referência mais próxima dos chilenos, embora esteja longe de servir-lhes como modelo.
Música muito bem composta e executada com extrema fidelidade foi o que todos os presentes puderam testemunhar. Sem exagero, afirmo desde já que o Wrathprayer faz parte da elite do atual black/death metal mundial. Forte indicio desse sucesso foi sua presença, repita-se, no importante festival da NWN! e sua anunciada participação no próximo "Maryland Deathfest", atualmente o melhor e mais prestigiado deathfest dos EUA. Realmente uma banda de nível superior.


Force of Darkness fecha o evento, que já deixou saudade!

Para fechar o evento, subiu ao palco o conhecido Force of Darkness.
Banda mais antiga, entre as chilenas, e a mais thrash da noite, o power trio mostrou para um público altamente receptivo suas músicas rápidas, calcadas em Mutilator, Sarcófago, Sodom e Kreator antigos, nas quais se destaca a riferama furiosa movida a incessantes palhetadas. De se ressaltar o desempenho do carismático baixista/vocalista (também responsável pelas guitarras/vocais no Hades Archer), que usa e abusa daqueles saudosos agudos diabólicos usados por Tom Araya no Show No Mercy e pelo nosso Wagner Antichrist no primeiro do Sarcófago.
Embora o Force of Darkness seja, das três chilenas, a formação de que eu menos goste, sem dúvida fez o show que mais agitou a galera. A banda já conta com um par de full lenghts e outro de splits, além de duas demos antigas, e goza de imenso prestigio no underground metálico de seu país – até por isso, foi a escolhida para encerrar a noite. Mais um show profissional, que demonstra o momento maravilhoso pelo qual passa a cena de metal extremo chilena. Sem dúvida, hoje, a número um da América do Sul.
Que venham outros eventos relevantes como esse, pois o intercâmbio entre as bandas e os fãs de nossa maldita e gigantesca Sudamerica não pode gerar nada mais do que ótimos frutos para toda a cena.

PS. A nota negativa ficou por conta do furto do case contendo o baixo do cara do Force of Darkness. É difícil acreditar que alguém possa entrar livremente no backstage para roubar os músicos e que ninguém veja nada. Tipo de coisa que não dá mais para admitir, mesmo em se cuidando de um evento totalmente underground.

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