Temple Nightside "Condemnation"

Publicado em: 21/01/2014 - 18:01

De uns tempos para cá a evolução do death metal old school – sim, mesmo o que é tradicional evolui – gerou uma forma muito particular de se compor e executar o metal da morte. Não é mais o riff a unidade fundamental da música, o elemento estrutural a partir do qual as demais peças da sinfonia são encaixadas e a música ganha sua completude. Não. A unidade fundamental é a reverberação, o hipnótico continuum de notas distorcidas a ecoar pelo infinito. Rigorosamente não há novidade aqui. Outras vertentes do metal (fora do death metal) já haviam descoberto, há mais tempo, tal possibilidade de exploração artística. Nesse sentido, o novo death metal de “reverberação” aproxima-se do antigo drone doom metal. Pórem, diferentemente do último, esse novo metal da morte não se limita a partes arrastadas, mas também investe fundo em blast beats.
Assim é a música do australiano Temple Nightside nesse Condemnation, seu primeiro full lenght, lançado mundialmente pela Nuclear Winter da Grécia. Camadas e mais camadas de guitarras, densamente embebidas na afinação mais baixa que o ouvido humano pode suportar. Ruídos e reverberações. Ecos e superposições. Gravidade solene, austera, abissal. Um som críptico gravado nas profundezas de alguma ciclópica caverna, antiga, úmida e sombria. Trata-se de música ritual, de evocação, metafórica e impregnada de simbolismos. Daí porque o riff, em seu sentido tradicional (literal), é menos relevante. De fato, não importa tanto o que ele é, as notas que o constituem, mas o que ele aponta, sugere, sinaliza. Mais, é na própria dissolução do riff, como unidade discreta, que o sentido da música exsurge, numa verdadeira epifania de destruição semântica. Ora, nesse contexto, um fraseado claro e distinto de guitarra seria, mais do que traição, sacrilégio.
O negro e esotérico death metal de “reverberação”, ao contrário do death metal convencional, não nos fala diretamente, ele nos sussurra, à meia-voz. Mas que não se perca pelas palavras. Seu sussurro, sua mística meia-voz – até porque, à voz inteira, seria entregar ao ouvinte o que lhe é de sua própria competência desvelar: aquilo que, no símbolo, está oculto, simbolizado – é um falar por entre dentes divino. E sua voz, parida das mais obscuras e guturais infinitudes cósmicas, gera temor reverencial. São meias-palavras sussurradas em voz inteira, capazes de fazer tremer o verbo da criação, os braços com os quais Atlas sustenta o mundo. Ou não é uma litania apocalíptica pela aniquilação do ser o que se ouve em Shrine of Summon (The Great Opposer)?
Descendo das dimensões etéreas, a mensagem do Temple Nightside, em Condemnation, manifesta-se, neste mundo sublunar, sob a forma de um death metal megaultrapesado, com um pé no black metal, muito influenciado por Incantation antigo, dotado de bases simples e sorumbáticas forjadas em trêmolos e de andamentos que variam do lento (ouça-se a minimalista e dramaticamente arrastada Ascension of Decaying Forms) à super-velocidade dos blast beats. Assim como no Incantation, não há passagens meio-tempo – ou se extrema para um córner ou para o outro. A produção, como não poderia deixar de ser, conferiu uma sonoridade abafada e sufocante ao play, inclusive na bateria, que parece enterrada no pó dos tempos, lá no fundo da gravação.
O Temple Nightside não está sozinho nesse modo singular de fazer death metal. Bandas como o dolorosamente arrastado Encoffination, dos EUA, e o complexo Antediluvian, do Canadá, também seguem esse caminho. Mas o Temple Nightside, em minha opinião, é o que mais bem executa essa proposta.
Um dos melhores e mais assustadores lançamentos do metal extremo de 2013.


Inebrie-se nos mistérios do templo...

23/01/2014 - 15:37
Fábio "Caverna" Lignelli

Impressionante...Excepcional...Absurdamente sinistro...Cheio de partes doom, que eu adoro...Não sei se tem a ver, mas a sonoridade me fez lembrar também do Grave Miasma e do Demoncy no "Joined in Darkness"...Texto muitíssimo bem escrito...Abraço...

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