Wargasm "Why Play Around?"

Publicado em: 17/01/2014 - 14:21

Incrível como o cenário thrash metal americano oitentista era foda! Até mesmo as bandas do terceiro time de lá (ao menos em termos de popularidade) tinham grande qualidade. É o caso do Wargasm, de Boston. Conhecidos apenas por alguns headthrashers mais fanáticos, os caras - na ativa, sob diferentes nomes, desde 1984 – debutaram em vinil somente em 1988, com esse excelente full Why Play Around?.
O que se ouve aqui é um thrash extremamente bem composto e bem tocado, com solos bacanas, ótimas transições e mudanças de tempo muito bem sacadas. Os riffs são catching a não mais poder, nada genéricos e grudam na memória como chiclete, da primeira vez que são ouvidos. Não diria que se trata de uma banda de thrash melódico, como, por exemplo, seus conterrâneos do Agent Steel ou do Savage Grace, mas é inegável a importância que as melodias têm no som do Wargasm. Em muitos momentos a banda parece mesmo um heavy metal tocado em ritmo thrash, dada a abundância e a qualidade das linhas melódicas. Só como exemplo, menciono o modo como as estrofes são compostas e cantadas. De fato, muito além de limitar-se a berrar o nome da música, coisa comum em bandas do estilo, o vocalista realmente entoa uma melodia, que é introduzida, muitas vezes, por uma ponte (ligando a base ao refrão). Em quantas bandas de thrash você ouve isso?
O andamento das músicas, em geral, tende para o cadenciado, como em Wasteland e na excepcional Revenge, faixas nas quais a feliz combinação de levadas meio-tempo e riffs “pegajosos” induz no ouvinte um frenesi headbanging. Mas também há faixas de puro speed, como Undead e a certeira Humanoid. Essa última, aliás, fecha o disco em alto estilo, desferindo uma verdadeira paulada na cara de quem a ouve. Chamo a atenção, particularmente, para a mortífera cadência thrash que surge do meio para o final dessa faixa. OK, é hora de reconhecer: ninguém faz cadências assim melhor do que as velhas bandas de thrash...
O instrumental beira o primoroso, com todos os integrantes se descincumbindo com muita competência de suas funções. Os irmãos Spillberg, responsáveis pela guitarra e bateria, imprimem a dose certa de peso e melodia ao som. Em particular o batera mostra sua criatividade acima da média, com pequenas variações nas batidas que fazem a música crescer de qualidade sem que, para isso, tenha de chamar demasiada atenção para si, em detrimento do equilíbrio da música. Só os caras realmente bons sabem tocar desse modo.
Embora o Wargasm tenha identidade, é impossível não notar a influência de Metallica, principalmente do Master of Puppets, na construção de certas bases e no som da bateria – que tem aquele timbre “explosivo” típico usado por Lars Ulrich na época – e de Anthrax antigo nos arranjos e nas melodias. Aqui vai uma observação pessoal. Ainda que o vocalista Bob Mayo, também responsável pelo baixo, cumpra sua função com dignidade, adotando um registro rouco e mais rosnado que casa bem com o thrash metal, confesso que fiquei a imaginar como teria sido se um Joey Belladonna tivesse cantado no play. O thrash de boas linhas melódicas da banda certamente seria valorizado com um vocalista mais gabaritado e de voz limpa.
A produção, embora decente, não é lá grande coisa e tirou um pouco da contundência da banda. Mas nada grave.
Antes de encerrar as atividades, o Wargasm gravou mais dois full lenghts: o bom Ugly (1993) e o duvidoso Suicide Notes (1995), esse último já com muita influência daquele chato thrash metal pula-pula dos anos noventa. Pelo que sei, todos os títulos estão fora de catálogo – o cd que consegui recentemente foi o original, da Rock Hotel Records – e nenhum selo, até agora, se dignou a reeditá-los. Já está na hora de alguém se mexer e relançá-los...com as antigas demos de bônus, de preferência.


Foto promocional da banda à época do primeiro disco

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